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Primavera Junho 20, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 1:14 am
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Uma de suas músicas favoritas era ‘The Rain Song’, do Led Zeppelin. Aya gostava, porque falava das estações, de como mudavam as coisas, a vida. Sentia que era assim consigo mesma. Mas a estação que mais gostava era a Primavera. “This is spring time of my loving…” era a frase que “estampava” seu fichário da faculdade. Como se a Primavera fosse suficiente.

Gostava das flores, e claro, principalmente nesta época. Gostava de andar pela universidade onde estudava e ver a grama bem aparada, pois podia enxergar as flores. Tinha uma vontade imensa de pegá-las, colher algumas e levar consigo, ou mesmo se ornamentar com alguma pequena flor. Mas sabia que as flores pertecem à natureza, e que estavam ali, cumprindo seu papel.

Imaginava como seria seu quintal quando tivesse seu próprio canto. Não sabia se teria um quintal, caso morasse num apartamento. Mas com certeza haveria vasos de flores espalhados em alguma varanda. Flores dentro de casa, sempre. Questionava-se como a mãe tinha disposição de ir comprar coisas de culinária diariamente no mercado, quando precisava cozinhar e queria algo diferente. “Cozinhe com o que tem”, pensava. Mas a mãe adorava cozinhar, e não hesitava em ir buscar champignons se fosse fazer um strogonoff. Pensava que seria assim com as flores.

Na casa em que mora com os pais, não havia muitas flores ou mesmo plantas. O pai era alérgico ao pólen, e a mãe nunca gostou de “mato”. Achava a casa cinzenta pela ausência de uma orquídea, de uma tulipa, de gérberas, de violetas, de dálias, de margaridas, de lírios e ah, as rosas, suas preferidas. Gostava da pomposa rosa colombiana, mas a rosa simples ainda era sua predileta. Sempre foi.  Havia sonhado aquele dia que ganhara rosas amarelas, fechadas. Gostava de sentir a maciez das pétalas, como se fosse veludo. Lembrara do sonho ao caminhar na universidade.

Gostava do pôr do sol. Bem, quem não gosta? Mas gostava de reparar. E achava o pôr do sol mais bonito também na Primavera. Sempre chegava à faculdade neste horário, então sempre teve o privilégio de caminhar observando o horizonte. Sentia-se bem assim. Como se não precisasse de mais nada.

Aya normalmente se sentia feliz com coisas assim, “pequenas”, apesar de sempre ter sonhado grande. Sempre foi uma daydreamer incorrigível. Impressionava-se como poderia encontrar paz em coisas tão simples. Por isso sempre gostou muito de flores, do pôr do sol, da Lua, das estrelas, da noite, de um céu límpido ou cheio de flocos de nuvens branquinhas, do silêncio da madrugada, de animais, da natureza. Muitos dos que a conheciam, provavelmente não esperava que fosse assim. Nunca quis se mostrar muito ao mundo; usava sua máscara todos os dias, mas não achava que isso fosse ruim. Bem, talvez tivesse mais amigos se mostrasse a verdadeira Aya. Ou menos. Mas não importava, pois gostava dos seus. Mas claro, sabia que a máscara era também muito friável e efêmera. Ninguém conseguia se esconder por completo, ou por muito tempo. Assim esperava.

Só havia algumas pessoas com quem conseguia ser ela mesma, sem ter que esconder, sem ter vergonha de falar de seus gostos, de suas vontades, de seus medos. Sua amiga Sarah, que conhecia há 17 anos. Estavam com 24 anos de idade agora. Conheceram-se no pré-escolar. Odiavam-se. Odiaram-se até a segunda série. Passaram a ser as melhores amigas. Odiaram-se novamente na sétima série. Voltaram a ser as melhores amigas. E desde então, tem sido assim. Voltaremos a falar de Sarah mais adiante. Digamos que ela merece um capítulo à parte.

Aya estava apaixonada. Muito. Amava demais seu namorado, Danny. Era outra pessoa que confiava completamente, sem pestanejar. Namoravam há um ano, pouco tempo para alguns, tempo suficiente para outros. Ambos se conheciam bem. Sabiam da vida um do outro, de alegrias, de descontentamentos, de gostos, de medos, de sonhos, e partilhavam muitos deles. Era por isso que haviam de se encontrar: eram parecidos. Além disso, combinavam, o que são duas coisas diferentes. O que era essencial para que dessem certo, e sabiam disso.

Danny também cursava a mesma universidade, porém faziam cursos bem distintos: Aya optou por Engenharia, embora gostasse tanto da natureza, nunca se achou capaz de lidar com pessoas ou animais. E outra, gostava muito de Exatas, e se dava muito bem com número e coisas muito mais complexas. Danny cursava Medicina, e se dedicava quase que integralmente ao curso.

Era Primavera agora. Mas em São Paulo, tem-se a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno num único dia. Apesar de ser Primavera, os dias estavam frios. Aya até prefere o frio do que o calor. Bem, já houve a época do Outono ser o eleito, assim como o Inverno. Mas nunca o Verão. Embora às vezes ficasse feliz quando se sentia aquecida pelo Sol – aquecida, não torrada. Sempre pensava se era isso que faltava aos europeus que vivem sem sol e são mais tristes, sendo até o número de suicídios maior em países em que não se vê muito a luz do sol. Sempre pensava coisas assim, que julgava bobo e não costumava comentar com ninguém. Com Danny, sempre comentava, porque sabia que ele não iria rir. Talvez, fosse gargalhar e rolar no chão, mas ela não se importava, porque provavelmente ele iria discutir por horas com ela, e mesmo que encontrassem idéias totalmente divergentes, iriam se entender. Sabia que aprenderia com ele, e talvez, ele com ela. Era por essas e outras que o amava também.

Caminhava ouvindo “Open Your Eyes” Do Snow Patrol. Estava quase chegando à faculdade, e embora fosse mesmo esse o destino final da caminhada, ficara triste; gostava de caminhar, principalmente ouvindo música, observando a vida a seu redor. Havia algumas músicas que eram ótimas pra caminhada, e essa era uma delas, mas claro, acabara de descobrir. Lembrava de que essa música significava dor. Fazia-a a lembrar do último relacionamento, e como queria que ‘abrissem os olhos’. Lembrava do video clip, que parecia um longo caminho por ruas tortuosas, mas que tinha um final feliz. E nunca teve o seu. Não nessa história. Mas agora a história era outra, e ficava feliz que podia ouvir a música sem se doer.

Chegou. Desligou o iPod, e entrou na faculdade, cumprimentando os vigias. Vestiu a máscara.

 

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