- Como vocês está?
- Bem.
Yoshiki olhou para Aya, e sorriu. Entendia a preocupação da prima, mas estava realmente bem.
- Posso perguntar?
- Claro. O que quer saber?
- Como foi vê-la depois de tanto tempo.
- Doloroso…
- Mas você disse que estava bem.
- E estou. Mas calma, não me deixou terminar de responder.
- Tá bem… continue.
- Como eu disse, foi doloroso. Ela apareceu na minha porta e eu devo ter reagido como se tivesse visto um fantasma. Ela se manteve estática, sorrindo, mas ela tinha uma vantagem, ela já sabia que me viria. Eu fui pego totalmente de surpresa. Apesar de ter sido um leve soco no estômago, também fiquei feliz quando a vi.
- E depois?
- Depois começamos a conversar e o nervoso foi passando… Ela foi falando da banda, da música, e eu tentei colocar meu lado produtor à frente. Deu certo porque fiquei mais descontraído. Conversamos muito tempo sobre música. Depois de um certo tempo, acabamos chegando no assunto que realmente queríamos chegar, acho.
- Sobre vocês?
- Sobre a vida. Como ela andou, como eu estava. Conversamos um pouco por cima, mas foi bom. Fiquei feliz de ver que ela está bem, que superou problemas que a faziam infeliz… Ou pelo menos está lidando bem melhor com eles. Porque acho que existem coisas que não superamos às vezes… Mas aprendemos a lidar de forma que… não sei, que dê pra levar adiante, não é?
- Acho que sim…
- Foi bom conversar com ela e ver que está bem.
- Mas e você? Ficou bem com isso?
- Aya, não é fácil, claro. Mas quando eu lhe disse que estava tudo bem, eu realmente quis dizer isso. Não foi fácil, doeu, dói. Não vou mentir. Mas foi bom ver aquele velho rosto aqui hoje. E ver que eu posso olhar pra ela sem querer chorar, sem querer sumir. Sem querer me despedaçar de novo… Você sabe que demorou tanto pra eu me juntar novamente. Mas eu fiquei feliz por mim, também. De ver que eu consigo viver com isso, apesar de cutucar. Eu só acho que cutucou na verdade porque… Porque foi muito tempo sem ver ou sem saber dela.
- Acho que entendo… Mas e agora? Vai produzir a banda dela?
- Acho que sim. Eles são bons. Não é só porque é a Alice… Ela sempre compôs coisas bonitas. E ela está trabalhando com pessoas competentes. Ela já tem a gravadora, e eles vão lançar o disco primeiro na Europa, já têm tudo planejado. Então acho que produzi-los vai ser legal.
- Como acha que vai ser vê-la sempre enquanto produzir o álbum?
- Você quer me testar.
- Mais ou menos… Quero saber seu limite.
- Não acho que vá ser mal, no sentido de ser realmente mal pra mim. Não digo que não é estranho. Mas sabe o que isso tudo me fez perceber?
- O quê?
- Que eu não sinto mais falta do meu passado. Eu sinto falta do meu presente. E meu presente… ainda é Marie.
- Então, é possível mesmo enterrar tantas feridas?
- Eu acho que sim. Acho que elas não se curam totalmente… Não quando é tão profundo assim. Talvez seja como perder um rim, um pulmão, um braço, perder parte de você… Tem como substituir? Não. E você não consegue substituir o que foi perdido. E é também como aquela dor fantasma de quem perde um membro e ainda sente dor nesse mesmo membro. Não está mais lá, mas você sente. Se nosso organismo, nosso cérebro que é tão preciso, se engana, porque nosso coração, nossas emoções também não podem se enganar? Mas infelizmente algumas respostas demoram a chegar porque compreendemos isso tão pouco…
- E agora? Como vai resolver essa falta do presente?
- Não sei, Aya. E é aí que mais uma pergunta se cria: será que a Marie que amei já faz parte do meu passado? Já que a Marie de alguns dias atrás não parecia mais a mesma que conheci… Estou de novo caindo no erro de sentir falta do meu passado?
- Acho que está se precipitando. Deveria dar uma nova chance a ela, conversar com ela. Não acredito que as pessoas possam mudar tanto de repente… Digo… Não sei, acho que podem…
- Experiência própria, hum?
- Posso dizer que sim. Mas sabe que cada um é cada um. Converse com ela. Sabe que tem que tentar.
- Eu sei. Só falta coragem agora…
- Dê um tempo. Além do que, eu acho que ela deve estar muito brava com o que você fez…
- Eu sei. Eu estava com raiva. Nunca agiria assim com ela nem com ninguém… É estúpido dizer isso, mas eu só agi assim porque a amo demais. Ninguém mais me faria agir dessa forma, tão desesperada.
- Realmente soa estúpido…
- Err…
- Mas é verdade. Uma única pessoa pode nos levar ao céu e ao inferno… Pode nos levar aos extremos.
- Então é verdade que amor e ódio andam juntos.
- Talvez. Mas você sabe… não é assim… é?
- Acho que não. Mas e você? Como estão as coisas?
- Normais, acho.
- Acha? Normal? Normal não é bom.
- Não? Anormal é bom, então?
- Ah, você entendeu. Quando as coisas estão bem, ninguém responde que está normal! Aí já tem algo de errado… Normal quer dizer tédio.
- Ah, que rebelde…
- Você entendeu.
- É… talvez tenha razão. Não acho que normal seja bom. Se eu não respondi que as coisas estão bem, isso não deve ser normal. Ah, enfim…
- O que não anda bem?
- Acho que nada…
- Como assim, nada? E você não me diz nada?
- Ah, você deveria saber que eu não saio falando…
- Bem, isso é verdade. Desculpe, eu ando meio relapso.
- Não precisa se desculpar. Você não precisa ouvir o problema dos outros quando se está cheio de outros.
- Bom, não precisa me enrolar. Desembucha.
- O problema é que… Ah, o problema deve estar… O problema deve ser eu. Eu não ando bem, consequentemente nada à minha volta anda bem, nada funciona. Ando cansada, abatida, pensativa, pensando em coisas que não me fazem bem, e nem entende porquê… Espero que seja só mais uma fase… Pior que nem TPM é.
- É muito estranho como vocês têm esperança na TPM. De que isso tudo se vá com a chegada da menstruação… Ser mulher deve ser esquisito… Muito hormônio no coração…
- O pior que é assim pra muitas pessoas… Eu queria que fosse assim pra mim também. Pelo menos eu me livraria de muitos problemas com uma semana de chatice, iria valer a pena menstruar… Enfim, papo estranho.
- Você é amaldiçoada, não tem TPM…
- Engraçado, algumas diriam que eu sou sortuda.
- Eu sei, estava sendo irônico… Bem, sendo TPM ou não, espero que passe.
- Eu também…
Yoshiki não quis perguntar à prima o que havia de errado. Desconfiava, e se estivesse certo, preferia não tocar no assunto, que era quase um tabu. Mas entendia, o que lhe fazia mal, realmente lhe fazia muito mal, assim como era com ele, embora percebera que não havia mais nada pra se preocupar com o passado. Estava de bem consigo mesmo, depois de muito tempo. Mas estava preocupado com Aya agora. Yoshiki se abria quando precisava, mas Aya não fazia o mesmo. Não era fácil fazê-la conversar quando estava mal, então achou melhor não pressionar. Diria quando estivesse pronta.
NP: Set The Fire To The Third Bar – Snow Patrol [Feat. Martha Wainwright]
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I’ll Stand By You – Rod Stewart
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Frozen – Madonna
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