Já que por enquanto não conseguia se resolver, Aya foi atrás de resolver problemas alheios. Pediu tempo à Yoshiki, para que na verdade ela pudesse conversar com Marie. E foi o que fez. Marcou um encontrou, e ao contrário do que Aya imaginava, Marie aceitou prontamente.
- Como vai, Aya? Faz tempo que não nos vemos. É até estranho.
- É verdade. É estranho quando pessoas da nossa convivência… somem.
- Eu não sumi, só me mudei. Sabe como me encontrar e aqui estamos. E então?
- Bom, Marie, primeiro, eu queria saber como você está, de verdade. Fiquei preocupada desde que foi embora.
- Fico feliz que tenha se preocupado comigo. Senti sua falta, sabia? Mas eu estou bem, Aya. Estou melhor do que quando estava lá. Eu sentia que estava me afundando, e não sabia como me levantar. E o que mais me doía é que eu sentia que levava Yoshiki junto comigo.
- Eu entendo isso… Mas o que eu não entendo, é por que quando estava com ele não conseguia fazer nada do que faz hoje? Por que, por exemplo, não voltou a trabalhar enquanto estava com ele? Lembro de várias vezes que ele lhe falava sobre isso.
- Aya, isso é uma coisa que nem eu mesma entendo. Eu não entendo até hoje porque precisei sair de perto de Yoshiki pra me reerguer. Apesar de todo o apoio que ele me deu, eu não conseguia. Me sentia presa, de certa forma. Eu sei que vai parecer ingratidão, dessa forma. Mas acho que o que me fazia mal, de certa forma estava ligado à ele. E talvez isso não me permitisse crescer novamente. É o que eu penso, sinceramente.
Aya não sabia o que dizer. Não entendia o que Marie dizia, mas ao mesmo tempo fazia sentido. Pelo jeito que a conversa continuava, Aya temia pelo primo. Sentia que Yoshiki iria sofrer com tudo isso.
- Eu o amo, Aya. Eu amo muito o Yoshiki, mas não consigo. Não agora. Acho que eu preciso disso, e ele também. O dia em que nos encontramos no restaurante, eu fui uma idiota. Tentei mostrar uqe a vida continua da pior maneira, mas ao mesmo tempo achava que era a maneira menos dolorosa pra ele, através da raiva. Não sei como pude pensar isso… é a pior maneira de dizer algo a alguém. Eu nem consegui sentir raiva da atitude dele, porque eu sabia como estava sendo idiota.
- É, Marie… Ele acha que você nem é mais a mesma.
- Eu queria que ele acreditasse nisso.
- Eu não entendo por quê…
- Pra quem sabe, ele poder se apaixonar novamente. Pela antiga Marie, pela nova Marie, ou por outra pessoa. E ser feliz. Esquecer tudo o que passou. É o que eu desejo… Há muitas coisas que eu quero esquecer.
- Marie, ele ainda te ama, e muito. Deveria conversar com ele.
- Ainda não, Aya. E por favor, não fale sobre essa conversar com ele, está bem? Confio em você.
- … Entendo.
Aya sentia-se traindo a confiança do primo, mas ao mesmo tempo era para seu bem. Aquelas palavras de Marie não faziam sentido naquele momento, mas Aya matutou e acabou entendendo, de certa forma.
- Sabe quando o procurou esses dias? A Alice.
-… Aquela Alice?
- É. Yoshiki vai produzir um álbum dela.
Marie ficou cabisbaixa. Aquilo a golpeou, doeu. Alice sempre foi o fantasma na vida dos dois. Aya não sabia ao certo se deveria falar, mas já tinha começado. Sentia traindo Yoshiki novamente, mas ao mesmo tempo queria ver a reação de Marie. Era óbvio que não iria gostar, já que dizia que ainda o amava.
- E como está Yoshiki com isso?
- Está bem. Reagiu muito bem. Fiquei com medo quando a vi no estúdio, confesso. Mas ele está bem, sabe, ele superou isso já…
- Eu acho que ele nunca vai superar…
- Não é bem assim. Ele mesmo disse que estava bem, e estava bem porque viu que as coisas são diferentes do que imaginava. Nem ele tinha idéia de que tinha superado essa história. Eu acredito que não há mais espaço para essa história na vida dele… Foi bonito, foi sofrido e tudo mais. Não está mais preocupado em enterrar tudo isso, em superar. Ele já o fez.
- E podemos ter certeza de coisas assim? Isso sempre me incomodou. Sempre.
Yoshiki sabia disso. E agora, lamentava-se, pois percebeu que às vezes não se dava na relação como Marie, exatamente por manter um pé nas más lembranças. Era feliz com Marie, sempre foi, mas aquela tristeza toda que sentia por causa da história mal resolvida com Alice sempre destoava, às vezes em maior ou menor grau. Isso o cegava, não permitia ver o que diante de si. Sentiu-se mais triste ainda, percebendo isso. Queria tanto Marie perto dele… Sentia sua falta, em tudo que fazia. E sentia que ela tinha ido embora por sua causa. Questionava se tinha sido um bom companheiro como ela merecia. E a resposta que vinha à sua cabeça era “não”. Sentia que havia tanto ainda a fazer por ela, que havia tanto pra viver ao seu lado. Sentia que aquela história não havia terminado.
NP: Fields Of Gold – Eva Cassidy
Salka – Sigur Rós