Yoshiki estava empenhado no trabalho com Alice. A banda gravou por um dia inteiro algumas faixas, nas quais Yoshiki trabalhou dias sem sair de casa. Quando tinha idéias para produzir um disco, gostava de dedicar-se exaustivamente. Acreditava que assim trabalhava da melhor forma, embora ninguém concordasse. Aya era uma delas.
- Você é louco. Aposto que nem está comendo direito.
- Admito que não estava. Mas hoje já estou terminando, me desligando um pouco. Senão fico louco, né? Não é bom ficar tanto tempo na mesma coisa, senão já não distinguo mais nada.
- E como foram esses dias?
- Foram produtivos. A banda é muito boa, muito criativa. As idéias fluiam facilmente, deu tudo certo. Acho que ficará bom, Aya. Precisa ouvir.
- Sim, preciso. Mas sei que, em tudo que você põe a mão fica bom, eu acredito.
- Aya, não tire o crédito da banda. Se não fossem eles… E somente eles, esse disco não teria ficado bom.
- Você diz isso porque acha que estou atacando a Alice, mas não é isso. Não tenho nada contra ela… musicalmente falando.
- Ok. Pode parar com a ironia e chegar ao ponto.
Aya se espantou porque Yoshiki foi um pouco seco ao dizer isso. Como a velocidade do pensamento é mais rápido que um piscar de olhos, em menos de 10 segundos, passou pela cabeça de Aya, a cena de Yoshiki gravando com Alice, eles se dando extremamente bem, Yoshiki feliz por estar ao lado de Alice novamente, Yoshiki se afundando, Yoshiki se cegando, ficando até mesmo contra ela.
- Calma… Não quis ofender.
- Não ofendeu. Só me fala onde quer chegar.
- Lugar nenhum, tá? Pode parar de ficar na defensiva.
- Não estou na defensiva.
Aya se aborreceu com o primo, algo que não acontecia há muito tempo para quem passa muito tempo juntos. Não queria conversar, então decidiu que iria embora. Yoshiki percebeu, e nem entendia como esse aborrecimento havia acontecido.
- Calma aí, nervosinha. Deixa eu terminar umas coisas? Já saio do estúdio. Você vai me levar pra tomar um sorvete porque deve estar um calor infernal lá fora, eu finalmente vou ver o sol depois de alguns dias, e a gente vai conversar.
Aya não respondeu, apenas saiu do estúdio e foi esperar na sala. Estava mesmo irritada, e era bem orgulhosa quando estava irritada com alguém. Ainda mais quando sabia que tinha razão. Mas, tinha razão no que nisso tudo? Sabia mesmo que estava provocando Yoshiki em relação a Alice. Mas o que a irritou mesmo foi a idéia dele possivelmente ter sido contaminado por ela em questão de dias. Mas foi só uma idéia, sabia que não tinha acontecido de fato. Começava a se preocupar.
Saíram pra tomar o tal sorvete. Aya não falava nada no caminho. Yoshiki tambem não, porque sabia que Aya estava irritada, e nem conseguia fazer um contato visual, já que Aya colocou um pesado óculos escuros. Yoshiki se sentia injustiçado, mas mesmo assim não sabia como chegar na prima, e não queria entregar-se ao orgulho. Ficou aliviado quando a caminhada terminou e eles entraram na sorveteria. Decidiu falar o que achava que Aya queria ouvir, embora soubesse que não devia explicações a ninguém. Mas com Aya era diferente.
- Foram dias cheio de trabalho. Nem tive tempo pra pensar em nada, o que de certa forma é bom.
- Não teve tempo pra pensar em quê? No que gostaria de ter pensado?
- Eu pensei em muitas coisas, sim. Quando descansávamos, era estranho estar ao lado de Alice. Ver uma pessoa, lembrar de outra. Eu via Alice de hoje, lembrava da Alice de ontem. Doía… Era triste. É triste sentir que perdemos alguém. Hoje ela é outra pessoa. Por tanto tempo, o que eu mais queria era um momento com ela… E quando eu finalmente tive, algo balançou aqui dentro. Algo s quebrou, como uma decepção. Algo como, ‘tarde demais’.
Aya sentia uma lágrima vindo, mas Yoshiki se conteve. Aya percebeu que aquele abatimento não era de tantos dias trabalhados sem ver o sol. Era sempre assim quando falava de Alice antigamente. A face da derrota.
- Embora isso tenha sido o que sonhei por muito tempo, percebi que esse sonho foi em vão. Como se eu tivesse criado a idéia de perfeição sem saber o que era perfeito de verdade. Alice era uma concepção, uma idéia, depois desses anos todos, sonhando. E eu não quero isso. Desde que Alice voltou, eu sempre soube. Mas acho que precisava sentir isso quebrando dentro de mim.
Yoshiki finalmente caiu em lágrimas. Aya sentiu um desespero nessas lágrimas, e sentiu-se com aquela velha sensação de impotência.
- E agora, o que eu mais quero, novamente eu não posso ter. Uma vez foi a Alice, agora vou criar o conceito Marie? Eu não quero isso de novo. Não quero sentir, quero rasgar meu peito e fazer tudo que sinto de ruim, e mesmo o que sinto de bom, que é o que cria o que me faz mal, ir embora. Não quero sonhar, planejar, imaginar como ela está, não quero tudo de novo. Mas eu não posso evitar… de novo.
Aya queria contar da conversa que teve com Marie, mas não sabia se era o certo a fazer. Ao ver o desespero de Yoshiki, parece que tudo valeria. Mas precisava pensar. Não podia criar uma expectativa que pudesse não existir.
- Yoshiki, você ainda não lutou. Dê um tempo, você sabe que ela precisa disso. A última vez que se viram foi ruim. Deixe o tempo dizer o que vai acontecer.
- Deixar o tempo construir meus muros novamente… É isso o que vai acontecer.
- Talvez. Eu sei como é esse sentimento de desespero de que nada vai dar certo. Mas não é o fim. Acredite nisso. Você pode fazer muito ainda.
- Não sei… Não sei se quero percorrer esse caminho de novo.
Aya sabia que essa história realmente não teve um fim. Como havia dito a Danny, quando duas pessoas se amam de verdade, elas encontram um jeito. Isso acalentava um pouco, pois sabia que realmente se amavam. Talvez Yoshiki pudesse se acalmar também, mas não sabia como Marie ainda se sentia. Aya odiava esses desencontros do coração. Por que as coisas não poderia ser mais fáceis?
Do outro lado da rua, havia uma floricultura. Lírios brancos reluziam e chamaram a atenção de Aya. Lembrou-se então, que Lilium significa ‘amor eterno’. A beleza das flores era uma das coisas que acalmavam seu coração.
NP: The Marriage – Jan P. Kaczmarek
Discovery – Virgo
Somewhere Over The Rainbow/What a Wonderful World – Israel Kamakawiwo’ole
Separate Ways – Andre Matos
Second Love – Pain Of Salvation
Forever Love – X Japan