Yoshiki e Aya acabaram dormindo no sofá. Ficaram conversando até caírem no sono, enquanto alguns DVDs de música tocavam. Marie saiu do quarto e os encontrou na sala. Sentiu aquele ciúmes ao ver os dois dormindo. Mas não era o ciúmes de antigamente. Sentia um ciúmes por achar que havia perdido Yoshiki. Ainda o amava, apesar de não terem a melhor relação no último ano.
Marie tinha tomado uma decisão. Havia arrumado as malas, e iria morar com a mãe. Não sabia se definitivamente, ou se seria só algum tempo. Percebia o quanto prendia Yoshiki, e isso a fazia infeliz. Não conseguia mais ser forte com ele, precisava encontrar essa força sozinha. O tratamento não ajudava muito, na verdade. Achava que tinha que andar com as próprias pernas novamente, e só conseguiria sozinha. Quem sabe pudesse voltar para Yoshiki bem.
Não quis acordá-los. Sempre dizia que Aya parecia um anjo dormindo, e Yoshiki parecia bem também. Nem havia saído ainda, mas já sentia falta deles. Subiu para arrumar o restante das malas.
Yoshiki ouviu os passos de Marie na escada e levantou com cuidado para não acordar Aya. Encontrou Marie de pé, fazendo as malas.
- Marie? O que está fazendo?
Marie não se virou, continuou fazendo as malas.
- Yoshiki, tomei uma decisão. Eu vou embora.
- Embora? Pra onde?
- Vou ficar com a minha mãe. Pelo menos por enquanto. E tomei outra decisão. Vou voltar a trabalhar. Lembra daquela agência que ligou? Eles ainda me querem para um projeto. Talvez seja minha última chance de voltar ao mercado.
Marie era modelo. Marie era realmente linda: tinha cabelos castanhos bem lisos e compridos, a pele bem clara, olhos verdes como a esmeralda. Era magra por genética, não precisava fazer muitos esforços para se manter no peso exigido. Apesar de todo o glamour em que sempre viveu, era bem simples. Queria coisas simples, gostava de coisas simples. E foi essa simplicidade que chamara atenção de Yoshiki. Não era fútil como outras desse mundo. Gostava de música clássica, gostava de ler, e adorava falar francês, que aprendera com sua avó e sua mãe.
- E… Como nós ficaremos?
- Não sei, Yoshiki. Mas sinto que preciso deixar isso tudo pra trás. Preciso seguir em frente, e você também. E nesse momento, não consigo isso com você, nem você comigo.
- Marie, claro que conseguiríamos isso juntos. Bastava você querer.
- Não Yoshiki, não é simples assim. Eu preciso ir embora. Me desculpe por ser tão fraca… Minha fraqueza não pode mais atingi-lo. Eu mandarei notícias, está bem? Virei visitá-lo também, e claro, pode me visitar. Não quero perder contato com você, mon chérie.
Yoshiki não sabia o que dizer. Via Marie escapar por seus dedos, mas sabia que estava certa.
A separação, em qualquer forma que seja, sempre é dolorosa. Yoshiki observou Marie entrando no táxi, e teve a impressão de que já estava um pouco melhor. Pelo menos estava buscando melhorar. Se para isso precisava se afastar dele, que fosse. A amava demais, só queria vê-la feliz, ainda que fosse em outro lugar, com outra pessoa. Mas sentia que havia falhado, que não havia feito o suficiente. Sentia que ainda não poderia deixa-la ir. Queria ter tentado mais. Sentiu-se mais culpado pela idéia da internação.
Mas não chorou. Sentia que não era o fim, que era apenas um recomeço. Sentiu-se feliz ao ver Marie sorrindo ao despedir-se. Voltou para a sala assim que Marie foi embora, e sentou-se ao lado de Aya, que acabara de acordar.
- Nossa, dormimos tarde ontem.
- É… apagamos, na verdade. Nem lembro que horas eram. Dormiu bem?
- Sim, apesar de ter dormido meio torta…
- É, eu também.
NP: The Night Is Young – The Bathers [feat. Liz Fraser]
Lost In Space (epic version) – Avantasia