The Luckiest

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Novos rumos Junho 25, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 6:32 pm
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Yoshiki e Aya acabaram dormindo no sofá. Ficaram conversando até caírem no sono, enquanto alguns DVDs de música tocavam. Marie saiu do quarto e os encontrou na sala. Sentiu aquele ciúmes ao ver os dois dormindo. Mas não era o ciúmes de antigamente. Sentia um ciúmes por achar que havia perdido Yoshiki. Ainda o amava, apesar de não terem a melhor relação no último ano.

Marie tinha tomado uma decisão. Havia arrumado as malas, e iria morar com a mãe. Não sabia se definitivamente, ou se seria só algum tempo. Percebia o quanto prendia Yoshiki, e isso a fazia infeliz. Não conseguia mais ser forte com ele, precisava encontrar essa força sozinha. O tratamento não ajudava muito, na verdade. Achava que tinha que andar com as próprias pernas novamente, e só conseguiria sozinha. Quem sabe pudesse voltar para Yoshiki bem.

Não quis acordá-los. Sempre dizia que Aya parecia um anjo dormindo, e Yoshiki parecia bem também. Nem havia saído ainda, mas já sentia falta deles. Subiu para arrumar o restante das malas.

Yoshiki ouviu os passos de Marie na escada e levantou com cuidado para não acordar Aya. Encontrou Marie de pé, fazendo as malas.

- Marie? O que está fazendo?

Marie não se virou, continuou fazendo as malas.

- Yoshiki, tomei uma decisão. Eu vou embora.

- Embora? Pra onde?

- Vou ficar com a minha mãe. Pelo menos por enquanto. E tomei outra decisão. Vou voltar a trabalhar. Lembra daquela agência que ligou? Eles ainda me querem para um projeto. Talvez seja minha última chance de voltar ao mercado.

Marie era modelo. Marie era realmente linda: tinha cabelos castanhos bem lisos e compridos, a pele bem clara, olhos verdes como a esmeralda. Era magra por genética, não precisava fazer muitos esforços para se manter no peso exigido. Apesar de todo o glamour em que sempre viveu, era bem simples. Queria coisas simples, gostava de coisas simples. E foi essa simplicidade que chamara atenção de Yoshiki. Não era fútil como outras desse mundo. Gostava de música clássica, gostava de ler, e adorava falar francês, que aprendera com sua avó e sua mãe.

- E… Como nós ficaremos?

- Não sei, Yoshiki. Mas sinto que preciso deixar isso tudo pra trás. Preciso seguir em frente, e você também. E nesse momento, não consigo isso com você, nem você comigo.

- Marie, claro que conseguiríamos isso juntos. Bastava você querer.

- Não Yoshiki, não é simples assim. Eu preciso ir embora. Me desculpe por ser tão fraca… Minha fraqueza não pode mais atingi-lo. Eu mandarei notícias, está bem? Virei visitá-lo também, e claro, pode me visitar. Não quero perder contato com você, mon chérie.

Yoshiki não sabia o que dizer. Via Marie escapar por seus dedos, mas sabia que estava certa.

A separação, em qualquer forma que seja, sempre é dolorosa. Yoshiki observou Marie entrando no táxi, e teve a impressão de que já estava um pouco melhor. Pelo menos estava buscando melhorar. Se para isso precisava se afastar dele, que fosse. A amava demais, só queria vê-la feliz, ainda que fosse em outro lugar, com outra pessoa. Mas sentia que havia falhado, que não havia feito o suficiente. Sentia que ainda não poderia deixa-la ir. Queria ter tentado mais. Sentiu-se mais culpado pela idéia da internação. 

Mas não chorou. Sentia que não era o fim, que era apenas um recomeço. Sentiu-se feliz ao ver Marie sorrindo ao despedir-se. Voltou para a sala assim que Marie foi embora, e sentou-se ao lado de Aya, que acabara de acordar.

- Nossa, dormimos tarde ontem.

- É… apagamos, na verdade. Nem lembro que horas eram. Dormiu bem?

- Sim, apesar de ter dormido meio torta…

- É, eu também.

 

NP: The Night Is Young – The Bathers [feat. Liz Fraser]

Lost In Space (epic version) – Avantasia 

 

Enough? Junho 25, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 5:54 am
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- Sinto saudades de dizer que amo alguém.

- Não diz isso a Marie?

- Digo, mas às vezes, não sei mais se é verdade.

- Mudou o que sentia por ela?

- Sabe, o amor não se molda sozinho. É preciso que duas pessoas queiram. Lembra de como achávamos que o amor de uma única pessoa, sendo grande, era suficiente para duas pessoas. Talvez seja, e talvez meu amor não seja assim tão grande. Ou talvez isso não seja verdade. Em que acreditar?

- Acho que já aprendemos que apenas o amor de uma pessoa pode até fazer milagres, mas não sobrevive sozinho.

- Engraçado, como somos tão calejados… Não queria que soubesse tanto da dor quanto eu.

- Digo o mesmo… Nunca aguentei ver você triste.

- É como eu disse. Tenho me sentido triste o tempo todo. Não gosto mais de mim. Como posso gostar de alguém? Sinto vontade de sumir… Se não fosse por algumas pessoas… Na verdade, elas são realmente muito poucas, sabe. Minha mãe vive bem sozinha, sempre viveu. Sentiria minha falta, sim. Mas ela entenderia. Não sei o que aconteceria a Marie. Talvez aprendesse a ser mais forte, talvez conseguisse acordar. E você, Aya?

- Como assim? O que tem eu?

- Would you miss me?

- Que tonto. Sabe que sim.

- Aya, sabe, eu não vou por você. Eu não consigo ir por sua causa.

- E eu também não o deixaria ir. Sei que soa um tanto egoísta…

- Não soa, sabe por quê? Porque eu sei que sou seu. Acho que meu castigo foi ser seu primo.

- Como assim?

- Se não fôssemos praticamente irmãos… Eu me apaixonaria por você. E talvez isso bastasse, e talvez eu fosse feliz desde criança. E não precisaria sofrer tanto.

- Você não sabe. Damos certo assim. Mas talvez déssemos muito errado como namorados… É até estranho falar assim.

- Talvez. Não podemos dizer, né? Obrigado, Aya. Você sempre me faz muito bem… Hoje vi o quanto é feliz com Danny. Não tinha esse sorriso antes, sabia? Eu vi que ele é especial pra você. Senti uma ponta de inveja… Gostaria de me sentir assim novamente, feliz, verdadeiro. Completo.

- Yoshiki, sei que tem sido difícil. Mas eu ainda acredito que é uma má fase, e que vai passar. Acho que não ajudei muito, andei afastada de vocês, mas a verdade é que eu não sabia me aproximar. Me sentia… culpada. Eu odeio lembrar de quando vi você desabando. Odeio lembrar da Marie machucada. Odeio lembrar da sensação de desnorteamento. Odeio aquele dia, assim como vocês.

- Sei que foi traumatizante pra você também. Mas você é forte… E eu preciso de força, Aya. Estava pensando em…

Yoshiki engoliu em seco. Tinha algo duro pra dizer. Aya entendeu e apenas esperou Yoshiki decidir quando diria.

- Eu pensei em… internar a Marie.

- Internar? Em algum hospital?

- Uma instituição. Nem parece clínica. O psiquiatra dela me recomendou. Talvez seja o melhor pra todos.

- Eu odeio esses lugares…

- Eu também não gosto. Mas me vejo sem opção.

- Como pode achar que isso faria bem à ela? Acho que só pioraria a situação dela. Você vai perdê-la de vez.

- Não sei, Aya. Tenho medo também. Mas já tentamos de tudo. Eu preciso retomar minha vida também, entende?

- Eu não apoio.

Yoshiki ficou desconcertado com a censura de Aya. Aya não se conformava com a idéia do primo, achava que era a pior decisão a ser tomada. Ficaram em silêncio por um tempo, até Yoshiki chegar à conclusão que provavelmente a prima estava certa, e que estava sendo egoísta. Aya entendeu que Yoshiki deveria estar desesperado para tomar tal decisão, e o perdôou. As coisas estavam muito erradas, não poderia ficar pior.

 

NP: How You Remind Me – Nickelback

I Turn To You – Christina Aguilera

Signs Of Life – Journey

Spancil Hill - The Corrs

 

Revelações Junho 25, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 5:18 am
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- Hey, isso é muito bom! – exclamou Danny.

- Isso soa bem NWOHBM, bem Iron Maiden! – empolgou-se Aya.

- É por isso que queria mostrar a vocês. Sabia que iam gostar. O que acha, Marie?

- Sabe que não gosto esse tipo de música…

- Está produzindo esses caras? – perguntou Danny. Eles são bons.

- Ainda não respondi. Me mandaram essa demo, estou pensando. O que acham? Mais uma banda de metal, ou têm futuro?

- Precisaria ouvir mais, mas eu acredito que eles têm potencial. Têm bons instrumentistas.

- Também achei isso, Aya. Mas precisava da opinão de profissionais, né?

Aya e Danny riram.

- Cara, se for produzir esses caras, me chama pra ver quando eles forem gravar. Achei muito legal uma banda nova assim. – Disse Danny.

- Claro. Vou falar com o tal do produtor. Quando acertar tudo, aviso vocês. Obrigado pela opinião de vocês. Bom, vamos ver se esses sanduíches estão bons!

- Yoshiki, poderia ter me avisado que eles viriam. Nem preparei nada.

- Eu avisei de última hora. Mas com certeza eles não se importam.

- Não mesmo. E os sanduíches estão bons. – disse Danny.

- A gente podia ver um filme. – sugeriu Aya.

- Boa idéia. Yoshiki comprou alguns DVDs novos. – respondeu Marie.

- Ah, estava pensando em ir ao cinema.

- Vamos, Marie? Faz tanto tempo que não saimos.

- Não sei… Não me sinto bem.

- O que tem, Marie? – perguntou Aya.

- Eu… só não me sinto bem pra sair. Preferia ficar em casa.

- Marie, vamos. Podemos ver o filme, comer naquele restaurante que adora depois.

- Yoshiki, acabamos de comer. Já disse, não me sinto bem. Vocês podem ir se quiserem…

- Tudo bem, Marie. Podemos ver um DVD aqui mesmo. – disse Danny.

Marie levantou-se e saiu da sala.

- Marie… – chamou Yoshiki.

Marie subiu para o quarto. Yoshiki foi atrás de Marie. Aya e Danny ficaram desconcertados, era uma situação muito delicada. Era possível ouvir apenas Yoshiki, pedindo para Marie abrir a porta do quarto, enquanto ela apenas soluçava lá dentro. Depois de um tempo, Yoshiki voltou para baixo.

- Desculpe, Yoshiki. Não devia ter comentado. – disse Aya.

- Sabe que não é sua culpa. Queria mesmo que estimulasse Marie a sair de casa um pouco. Eu também não aguento ficar trancafiado aqui por causa dela… mas não se o que fazer.

- O que o psicólogo tem dito?

- Que ela nunca se recuperou daquele dia… que o trauma foi grande, desde o ataque, até a perda do bebê… que nunca existiu.

- Ainda hoje ela acha que estava grávida? Mesmo vendo exames?

- Ela nega. Ela diz que sabe o que sentia, e só ela sabia. Isso dificulta mais as coisas. Não sei o que fazer. Se é melhor aceitar a visão dela, ou se é melhor fazê-la encarar a realidade.

Aya sentia-se triste por ver Yoshiki tão derrotado. Sentia-se impotente. Yoshiki sempre a ajudou, e queria poder retribuir. Odiava vê-lo sofrer tanto, justo ele, uma das pessoas que mais importava em seu mundo. Preferia que a dor que sentia passasse pra ela mesma. Era mais fácil lidar com sua dor do que com a dos outros.

- Bom, mas vamos ver um filme então. Não quero ficar pensando nisso. Que tal um filme romântico?

- Ih, aí depende. Sem mela-cueca, hein? – descontraiu Danny.

- Cara, existe filme romântico não mela-cueca? Bom, esse tem cara de ser muito. Mas também parece bom. “PS Eu te amo”.

- Ah, queria ver esse faz tempo!! Vamos ver esse! – disse Aya.

Yoshiki tinha uma casa bem confortável. Foram para uma sala onde havia um projetor, e sofás confortáveis, mas preferiram jogar-se nos puffs no chão. O filme era realmente muito melancólico: Aya já deixara escapar lágrimas nas primeiras cenas. Yoshiki olhou para a prima enxugando as lágrimas, e pensou consigo mesmo, “ela não muda…”. O engraçado é que Danny também se emocionava durante o filme. Yoshiki pensou em tirar um sarro, mas achou aquilo interessante. Percebeu o quanto Danny era sensível também, assim como Aya. E como era difícil encontrar pessoas que conseguiar expôr fraquezas assim. Yoshiki sentia-se travado. Sentia-se sempre transbordando, mas nunca conseguia explodir. Não sabia a que atribuir isso. Eram muitas coisas do passado, e do presente, que interferiam em seu futuro. Sem que percebesse, observou Aya e Danny juntos. Sentia falta de ser feliz assim também. Sentia-se mais velho do que realmente era. Sentia que envelhecera tanto no último ano, sentia-se estagnado. Eram tantas coisas pra sentir, que não sentia mais a si próprio.

O filme acabou com muitas lágrimas. Mas com sorrisos de ter visto a um bom filme. Danny despediu-se de Yoshiki e Aya, porque enfretaria um plantão no hospital onde fazia residência. Ainda não estava na hora, mas foi voluntariamente para saber como era a rotina de um hospital, e hoje era o grande dia. Yoshiki chamou um táxi para Danny.

- Acho que vou pegar um também, está tarde. – disse Aya.

- Então fica aqui hoje. Avise a sua mãe. Já está muito tarde.

Aya iria dizer que era melhor voltar pra casa, mas percebeu que o primo estava realmente abatido. Sentia que ele não queria ficar sozinho. Ligou para a mãe, que concordou sem problemas, afinal era Yoshiki. Aliás, essa era a desculpa que Aya sempre dava quando passava a noite fora com Danny. Avisava que ia dormir na casa do primo, e a mãe nunca desconfiava, já que confiava em Yoshiki de olhos fechados.

- Que bom que resolveu ficar. Acho que preciso conversar com alguém. E que bom que esse alguém é você… Se importa? – perguntou Yoshiki, acendendo um cigarro.

- Sabe que me importo. Mas, vou fazer o quê?

- Não se importava há alguns anos.

- Enfim…

- Aya, eu quero parar.

- Parar o quê?

- Isso tudo. Você viu.

- Sim, mas seja específico.

- Isso está… me matando. Por dentro e por fora. Eu nunca mais fui o mesmo há um ano. Minha vida virou um inferno. Acordo todos os dias no meio da noite pra saber se Marie está bem, não consigo dormir. Tenho tomado calmantes, coisas pra me manter acordado, tenho feito uma bagunça com a minha saúde. Há dias que não vejo o sol. E é assim sempre. Perdi contato com muita gente. Só tenho trabalhado. Às vezes não posso receber meus clientes em casa. Me sinto triste ou revoltado todos os dias. Voltei a ser triste o tempo todo…

Aya não sabia o que dizer, enquanto Yoshiki a encarava por alguma resposta. Mas os dois não precisavam de respostas. Bastava um olhar. Aya não precisava dizer que sentia muito. Yoshiki sabia. Os dois sempre se espantavam com a ligação que tinham. Um sabia o que o outro sentia, sem dizer uma palavra. Abraçaram-se longamente enquanto Yoshiki finalmente conseguia desafogar.

 

NP: All Through The Night – Cyndi Lauper

Pressure – Anathema

Ask The Lonely – Journey

Cry With a Smile – After Forever

Run For a Fall – Epica

 

 

Scars Junho 25, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 3:55 am
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- Aya? É o Yoshiki.

- Claro que eu sabia que era você.

- Não quer vir aqui em casa? Queria que desse umas opiniões sobre um trabalho. Marie quer vê-la também.

- Ah, ótimo… Estou com saudades de vocês também. Vou, sim. Importa se eu for com o Danny?

- Aquele magrelo?

- Yoshiki…

- Just kidding. Claro, pode vir, não precisa nem pedir. Um beijo, até daqui a pouco então.

Fazia um pouco mais de um ano daquele triste incidente. Yoshiki estava melhor, já Marie, ninguém sabia. Fazia tratamento psicológico, e era difícil entender o que realmente se passava com ela. Yoshiki não saia de perto, estava sempre a vigiando. Tinha medo desde aquele dia no hospital. Isso a irritava, pois, na sua versão, nunca tentou se matar.

- Aya! Danny, entrem!

Yoshiki abraçou Aya fortemente, praticamente entrangulando-a. Os dois riram. Eram muito amigos, sentiam falta um do outro quando não estavam perto. Haviam morado juntos quando eram mais novos, quando a mãe de Yoshiki decidira ir para outro país. O pai de Yoshiki havia morrido quando ele tinha sete anos, então Yoshiki cresceu com Aya por muitos anos. Mesmo depois que a mãe de Yoshiki voltara, estavam sempre juntos, estudaram juntos no mesmo colégio, e mesmo com a diferença de idade, estavam sempre perto. As famílias também eram bem próximas. A mãe de Yoshiki era irmã do pai de Aya. Também se davam bem, na família de seis filhos.

Danny até sentia uma ponta de ciúmes. Mas procurava entender a relação fraternal dos dois, no fundo ficava feliz que Aya tinha um alguém como Yoshiki.

- E Marie, onde está?

- No quarto, descansando.

- Como ela está?

- Hoje ela está bem… Eu acho.

- Como estão as coisas?

- Um pouco mais fáceis, Aya. Há dias que são difíceis. Mas ela tem melhorado.

- Sabe que pode contar comigo, pro que precisar, não sabe?

- Claro. Bom, mas vamos falar de trabalho. Venham, quero a opinião dos dois sobre esse trabalho novo. Danny, você toca guitarra, não toca?

- Piano.

- Ah é, guitarra era o outro namorado da Aya…

- Yoshiki? – reclamou Aya.

- Danny, só estou brincando. Você é o único deles que eu gostei, só por isso eu brinco com você.

- Ahn… Tudo bem, eu não ligo não. – disse Danny, descontraído, enquanto Aya olhava pra Yoshiki com um olhar de reprovação. Ele respondia com um olhar de ‘o que foi?’

- Yoshiki? – era Marie, descendo as escadas.

- Marie!! – disse Aya, correndo para abraçá-la.

- Como vai, Aya? Faz tanto tempo que não nos vemos.

- Eu sei. Olá, Daniel.

- Olá Marie, tudo bem?

- Querida, venha, vamos ouvir aquele novo projeto do Gus.

- Eu vou fazer algo para comermos, e já vou.

- Hum… está bem.

Enquanto Marie seguiu para a cozinha, Yoshiki pediu para que Aya fosse junto. Não gostava de deixar Marie sozinha. Aya achou desnecessário, mas mesmo assim fez o que o primo pedia. Enquanto isso, Yoshiki entrou no estúdio que tinha em casa com Danny.

- Eu ajudo, Marie. Que faremos de lanche?

- Ah, obrigada Aya. Hum, podemos fazer sanduíches? Não me sinto disposta a cozinhar. Yoshiki nem me avisou que viriam, senão teria preparado alguma coisa.

- Não se incomode. Eu e o Danny trouxemos essas tortas de morango.

- Hum, estão com uma cara ótima. Vou guardar pra sobremesa.

Depois de guardar a torta, Marie pegou o pão de forma e uma faca para cortá-los ao meio. Aya se incomodou ao ver Marie com a faca, e pediu para cortar os pães.

- Deixe que corto. É que não sei onde estão os ingredientes, assim você vai adiantando.

- Está bem… Mas… Sabe Aya, eu não vou me matar com essa faca de cozinha, se é o que está pensando.

- Marie, por que diz isso?

- Nada, nada. Vou pegar os ingredientes, então.

Aya se sentia incomodada por Marie desde aquele dia. As coisas nunca mais foram a mesma. Na verdade, Marie nunca mais foi a mesma. Todos foram transformados depois daquele dia, mas Marie parecia não seguir em frente. Estava sempre apática, alheia ao mundo. Estava sem trabalhar, ficava ociosa em casa. Yoshiki acabou recluindo-se mais por causa de Marie. Deixava-a sozinha o mínimo possível. Isso o prejudicou de certa forma, perdera alguns contatos por faltar em reuniões, mas ia se virando. Ainda sentia revolta por tudo que acontecera. Acompanhava o caso de perto, sem que Marie soubesse de detalhes. O criminoso foi considerado culpado, porém com desequilíbrio mental. Yoshiki não aceitava isso. Queria que o criminoso pagasse na cadeia.

Houve um dia em que Aya fora visitá-los. Entrou sem bater, visto que a porta estava aberta. Achou que Yoshiki gostaria da surpresa. Aya entrou de mansinho, e viu Yoshiki tocando piano. Observou de longe, gostava do primo tocando. De repente, Yoshiki se transformou. Marretava as teclas do piano com agressividade, caía em desespero. Chorava com as mãos na cabeça, sem saber o que fazer. Aya segurou-se, e resolveu ir embora. Já tinha visto o primo em outras situações parecidas, mas preferiu deixá-lo.

—–

- Quer dizer então que o outro cara tocava guitarra? Eu não sabia disso.

- Eu estava brincando, Danny. Se tocava, eu nem sei. Não fazia muita questão de saber… Nunca gostei de nenhum deles. Até tentei, pela Aya, mas… Você tem sorte.

- Humm…

- Brincando de novo. Falando sério, nunca realmente achei que eles fossem os caras certos pra ela. Bem, quem sou eu pra decidir, você deve estar pensando… Mas eu a conheço bem, e sempre achei que ela merecia coisa melhor.

- Eu sou a coisa melhor, então? – brincou Danny.

- Ná vá ficar se achando.

Yoshiki brincava, mas sempre se preocupou com Aya. Até demais. Às vezes discutiam por causa da interferência. Bancava o irmão mais velho ciumento. Realmente nunca achava ninguém bom o suficiente para Aya, mas gostava de Danny. Percebia suas intenções, sabia que era um bom rapaz. Ao contrário de alguns.

 

NP: Unnamed Song – Violet UK

Heroines – Diablo Swing Orchestra

Flowers – Rozz Williams

 

Desabafos Junho 24, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 4:18 am
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Gostava da faculdade, do que aprendia. Havia muitas matérias que não entendia absolutamente nada, mas sabia que fazia parte. Em qualquer lugar era assim. Não via a hora de se formar, ainda faltava um ano para terminar o curso. Fazia estágio em uma empresa de porte grande. Era o orgulho dos pais, a referência da casa; seus irmãos tinham que conviver com o fardo de seguir os brilhantes passos da irmã mais velha. Mas Aya não se achava nem um pouco brilhante. Achava apenas que fazia sua parte, e que fazia por si mesma. Claro, havia a gratidão ao apoio dado pelos pais. Mas sempre fez de tudo para depender deles o menos possível. Odiava quando lhe jogavam na cara “tudo o que fizemos por você”. E nem era tanto assim. “Pra que tiveram filhos, então?”, pensava.

O que a animava na faculdade eram os amigos. A maioria, colegas, que apesar de serem divertidos, sabia que eram apenas colegas, e assim que terminasse a faculdade, muitos sumiriam de sua vida. Ou não… A vida dá muitas voltas. Mas tinhas amigos, que considerava grandes amigos. Saía com eles sempre que podia, combinava um barzinho aqui e ali, fugiam de aulas chatas pra conversar.

 Uma de suas melhores amigas da faculdade era Lana. Lana era uma figura única: engraçada, debochada, divertida, inteligente e sabia conversar de qualquer coisa. Estava sempre rindo, e fazendo todos rirem. Mas só Aya, de todas as pessoas da faculdade, sabia quando Lana queria, na verdade, chorar, ou apenas não ter que sorrir todo o tempo. Se davam bem, ajudavam-se, tanto na faculdade quanto na vida.

 

-Só falta mais um ano – disse Aya.

- Nem me fale! Nem sei o que vou fazer da vida. Não sei ainda o que eu quero… – disse Lana.

- Eu tenho um rumo, mas certeza mesmo, só vou ter quando tiver que ser. Quem é que tem certeza de tudo? Não dá pra traçar planos tão concretos ainda… Ou será que nós é que somos muito perdidas?

- Acho que nós somos muito perdidas. Mas, quem se importa?

- Eu me importo. E…

- SILÊNCIO! – esbravejou o professor de Cálculo IV.

As duas preferiram sair da aula. Sabiam que tinham que se esforçar pra entender aquela matéria, mas faltava um pouco de ânimo. Não aguentavam mais professores leitores de slide, ou que nem se viraram pra ver a expressão de pânico dos alunos, que não entendiam nada. Então, “aula pra quê?”, pensavam, e saíam da sala com a consciência um pouco mais leve.

- Ah, nem deveria ter vindo. A aula desse professor é um lixo. – reclamou Lana.

- É, fazer o quê…

- Você anda meio calada ultimamente…

- Eu? Não… Acho que é cansaço.

- Difícil você ficar quieta por cansaço. Quando tá cansada, normalmente esbraveja.

- Impressão sua…

 

Mas Aya sabia que Lana estava certa. Ah, sentiu vontade de desabafar. Mas sentia que não era hora, ou que nem sabia o que desabafar. Só andava avoada com as coisas que andava sentindo. Não sabia colocar em palavras ainda. Então, era melhor assim, matutar consigo mesmo, e deixar isso passar, ou então colocar em palavras. Por outro lado, pensava que desabafar sem palavras prontas também poderia ser útil. As palavras brotariam do nada, e talvez algo produtivo saísse. Mas, já tinha pensado demais pra isso.

 

NP: Collapse The Light Into Earth – Porcupine Tree

 

Primavera Junho 20, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 1:14 am
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Uma de suas músicas favoritas era ‘The Rain Song’, do Led Zeppelin. Aya gostava, porque falava das estações, de como mudavam as coisas, a vida. Sentia que era assim consigo mesma. Mas a estação que mais gostava era a Primavera. “This is spring time of my loving…” era a frase que “estampava” seu fichário da faculdade. Como se a Primavera fosse suficiente.

Gostava das flores, e claro, principalmente nesta época. Gostava de andar pela universidade onde estudava e ver a grama bem aparada, pois podia enxergar as flores. Tinha uma vontade imensa de pegá-las, colher algumas e levar consigo, ou mesmo se ornamentar com alguma pequena flor. Mas sabia que as flores pertecem à natureza, e que estavam ali, cumprindo seu papel.

Imaginava como seria seu quintal quando tivesse seu próprio canto. Não sabia se teria um quintal, caso morasse num apartamento. Mas com certeza haveria vasos de flores espalhados em alguma varanda. Flores dentro de casa, sempre. Questionava-se como a mãe tinha disposição de ir comprar coisas de culinária diariamente no mercado, quando precisava cozinhar e queria algo diferente. “Cozinhe com o que tem”, pensava. Mas a mãe adorava cozinhar, e não hesitava em ir buscar champignons se fosse fazer um strogonoff. Pensava que seria assim com as flores.

Na casa em que mora com os pais, não havia muitas flores ou mesmo plantas. O pai era alérgico ao pólen, e a mãe nunca gostou de “mato”. Achava a casa cinzenta pela ausência de uma orquídea, de uma tulipa, de gérberas, de violetas, de dálias, de margaridas, de lírios e ah, as rosas, suas preferidas. Gostava da pomposa rosa colombiana, mas a rosa simples ainda era sua predileta. Sempre foi.  Havia sonhado aquele dia que ganhara rosas amarelas, fechadas. Gostava de sentir a maciez das pétalas, como se fosse veludo. Lembrara do sonho ao caminhar na universidade.

Gostava do pôr do sol. Bem, quem não gosta? Mas gostava de reparar. E achava o pôr do sol mais bonito também na Primavera. Sempre chegava à faculdade neste horário, então sempre teve o privilégio de caminhar observando o horizonte. Sentia-se bem assim. Como se não precisasse de mais nada.

Aya normalmente se sentia feliz com coisas assim, “pequenas”, apesar de sempre ter sonhado grande. Sempre foi uma daydreamer incorrigível. Impressionava-se como poderia encontrar paz em coisas tão simples. Por isso sempre gostou muito de flores, do pôr do sol, da Lua, das estrelas, da noite, de um céu límpido ou cheio de flocos de nuvens branquinhas, do silêncio da madrugada, de animais, da natureza. Muitos dos que a conheciam, provavelmente não esperava que fosse assim. Nunca quis se mostrar muito ao mundo; usava sua máscara todos os dias, mas não achava que isso fosse ruim. Bem, talvez tivesse mais amigos se mostrasse a verdadeira Aya. Ou menos. Mas não importava, pois gostava dos seus. Mas claro, sabia que a máscara era também muito friável e efêmera. Ninguém conseguia se esconder por completo, ou por muito tempo. Assim esperava.

Só havia algumas pessoas com quem conseguia ser ela mesma, sem ter que esconder, sem ter vergonha de falar de seus gostos, de suas vontades, de seus medos. Sua amiga Sarah, que conhecia há 17 anos. Estavam com 24 anos de idade agora. Conheceram-se no pré-escolar. Odiavam-se. Odiaram-se até a segunda série. Passaram a ser as melhores amigas. Odiaram-se novamente na sétima série. Voltaram a ser as melhores amigas. E desde então, tem sido assim. Voltaremos a falar de Sarah mais adiante. Digamos que ela merece um capítulo à parte.

Aya estava apaixonada. Muito. Amava demais seu namorado, Danny. Era outra pessoa que confiava completamente, sem pestanejar. Namoravam há um ano, pouco tempo para alguns, tempo suficiente para outros. Ambos se conheciam bem. Sabiam da vida um do outro, de alegrias, de descontentamentos, de gostos, de medos, de sonhos, e partilhavam muitos deles. Era por isso que haviam de se encontrar: eram parecidos. Além disso, combinavam, o que são duas coisas diferentes. O que era essencial para que dessem certo, e sabiam disso.

Danny também cursava a mesma universidade, porém faziam cursos bem distintos: Aya optou por Engenharia, embora gostasse tanto da natureza, nunca se achou capaz de lidar com pessoas ou animais. E outra, gostava muito de Exatas, e se dava muito bem com número e coisas muito mais complexas. Danny cursava Medicina, e se dedicava quase que integralmente ao curso.

Era Primavera agora. Mas em São Paulo, tem-se a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno num único dia. Apesar de ser Primavera, os dias estavam frios. Aya até prefere o frio do que o calor. Bem, já houve a época do Outono ser o eleito, assim como o Inverno. Mas nunca o Verão. Embora às vezes ficasse feliz quando se sentia aquecida pelo Sol – aquecida, não torrada. Sempre pensava se era isso que faltava aos europeus que vivem sem sol e são mais tristes, sendo até o número de suicídios maior em países em que não se vê muito a luz do sol. Sempre pensava coisas assim, que julgava bobo e não costumava comentar com ninguém. Com Danny, sempre comentava, porque sabia que ele não iria rir. Talvez, fosse gargalhar e rolar no chão, mas ela não se importava, porque provavelmente ele iria discutir por horas com ela, e mesmo que encontrassem idéias totalmente divergentes, iriam se entender. Sabia que aprenderia com ele, e talvez, ele com ela. Era por essas e outras que o amava também.

Caminhava ouvindo “Open Your Eyes” Do Snow Patrol. Estava quase chegando à faculdade, e embora fosse mesmo esse o destino final da caminhada, ficara triste; gostava de caminhar, principalmente ouvindo música, observando a vida a seu redor. Havia algumas músicas que eram ótimas pra caminhada, e essa era uma delas, mas claro, acabara de descobrir. Lembrava de que essa música significava dor. Fazia-a a lembrar do último relacionamento, e como queria que ‘abrissem os olhos’. Lembrava do video clip, que parecia um longo caminho por ruas tortuosas, mas que tinha um final feliz. E nunca teve o seu. Não nessa história. Mas agora a história era outra, e ficava feliz que podia ouvir a música sem se doer.

Chegou. Desligou o iPod, e entrou na faculdade, cumprimentando os vigias. Vestiu a máscara.