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Perdas Junho 30, 2008

Arquivado em: Uncategorized — Eve @ 4:48 am
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Aya pensava consigo mesmo que todos deveriam ter alguma perda em suas vidas. E que isso os fazia pensar diferente. FIcou pensando sobre mudar, depois da conversa com Yoshiki. Percebia que o primo, apesar das quedas, sempre manteve-se firme no que acreditava. E aquela frase “será que vale a pena?” ficou ecoando na cabeça.

Não queria revirar-se. Haveria algum momento que teria que fazer isso, limpar o pó de memórias antigas. Mas ainda sentia que não era hora. Quando o tempo não cura, o que então iria curar? Não se sentia mais ferida por coisas antigas, mas mesmo assim não gostava de lembrar. Começou a pensar então no sofrimento alheio.

Yoshiki, por exemplo. Lembra que o primo entrou em depressão pós-Alice. Ela era seu mundo, e apesar de terem ficado pouco tempo juntos, Yoshiki sempre diz que aprendeu muito com ela. Alice tinha muitos problemas na vida, e dizem que só os maus momentos é que nos fazem aprender sobre a vida. Talvez fosse o caso de Alice. Yoshiki gostava de seu ponto de vista, mas depois de algum tempo, depois de superar isso, conseguiu ver com os próprios olhos que não era bem assim. Percebeu que Alice tinha a visão do que ele julgava errado. Por causa de seus problemas, tendia a ver tudo com pessimismo, como se o mundo não tivesse mais jeito. Yoshiki partilhou dessa visão enquanto estava com ela, e um tempo depois. Mas percebeu que pensar assim, não era seu jeito de pensar. Isso o ajudou a superar a perda.

Depois de Alice, vieram outras. E veio Marie. Aya acreditava que Yoshiki nunca superaria a dor que Alice lhe causou. Nem mesmo Yoshiki acreditava. Mas quando Marie veio, depois de tanto tempo, as coisas mudaram. Era a primeira vez que Yoshiki voltou a acreditar que poderia ser feliz. E realmente foi, por quatro anos. Ninguém sabia o que aconteceria daqui pra frente, mas Yoshiki estava sofrendo novamente. Já sabia o caminho da dor, mas mesmo assim, percorria a mesma trilha. O buraco parecia maior agora, porque com Marie era feliz em tempo integral, com Alice, era quase sempre infeliz. Com Marie, seus planos davam certo, não apenas quando dependia dele. No começo do namoro, Yoshiki tinha medo, e era cauteloso com Marie. Acreditava que nada superaria o que sentia por Alice. Mas viu que era bobagem, porque com Marie aprendeu a sorrir de verdade, a ser ele mesmo. Aprendeu a deixar a dor, embora a dor fosse inspiradora. Mas sabe da importância de Alice em sua vida. Talvez, se não tivesse conhecido o outro lado do amor, talvez nunca teria se dado tanto à Marie. Talvez nunca tivesse se esforçado tanto em momentos que foram precisos.

Aya pensou nisso, e tirou algo positivo da perda. Claro, ninguém gosta de sofrer, mas todos sofrem, e se pelo menos pode-se aprender algo da dor, que seja algo de bom.

Pensou em Danny. Antes de conhecê-lo, Danny havia namorado uma garota. Isso causava-lhe um leve mal estar. Aya nem citava seu nome. Não era um ciúmes bobo de ex namorada, aliás, não era ciúmes. Aya tinha sim, raiva, assim como tinha de Alice. Raiva por ter feito Danny sofrer. Danny e essa garota que ainda não citaremos o nome, namoraram por algum tempo. Eram novos, eram problemáticos, estavam conhecendo a vida. E nesse tempo, sofreram. Danny parecia ter sofrido mais, porque não se desvencilhava da perda. Talvez aquele ditado, “pisa que eles correm atrás”, realmente é verdade, pensou Aya. Mas Danny parecia bem. Já haviam conversado longamente sobre esse assunto, embora fosse difícil. Eram sinceros um com o outro. Isso por si só já fazia bem à Aya, que nunca conseguia ser 100% sincera com outros, ou consigo mesma quando falava de dores passadas, ou de outros sentimentos relacionados a outros tempos. Isso também fazia diferença com Danny. Era muito feliz. Por isso era hora de largar restos de outros tempos, era hora de virar a página.

 

Danny se manteve fechado por muito tempo, desde então. Não se lembrava mais como era desde que havia trancado seu coração. No fundo, lembrava-se, e tinha esperança de que pudesse entregar a chave novamente para a ex namorada, ou alguém que o amasse, alguém que ele pudesse amar. Ele não sabia se era falta dela, ou falta de alguém. Na verdade, sabia que o problema estava nele: não sabia se poderia amar tudo o que havia amado novamente, daquele jeito, naquela intensidade. Aquilo tudo era ele, e se não pudesse ser ele novamente, então não queria. E batera o pé no erro, insistindo no antigo amor.

Mas conheceu Aya, e percebeu que não valia a pena tantas defesas, tantas muralhas. Derrubou-as, talvez ainda não por completo. Algumas coisas levam tempo, talvez mais do que tempo. Aya odiava perceber que aprendia mais com erros e decepções, e também a maioria das pessoas que conhecia. Por que não aprender com os acertos, com sorrisos, com momentos felizes, com momentos epifânicos? Era preciso perder para perceber o que se tinha? Era o velho papo de “intrínseco ao ser humano”? Aya detestava teorizar tudo, mas quando percebia, já tinha uma teoria pronta na cabeça, pra tudo, das coisas mais bestas às mais importantes. Seu lado cético racionalizava tudo, mas cada vez mais percebia que algumas coisas não são feitas para se usar a razão. Existiam coisas que ninguém explicava, e que ninguém precisava se perguntar por quê.

 

NP: Anthem – Kamelot

 

 

O passado condena Junho 24, 2008

Arquivado em: Uncategorized — Eve @ 5:13 am
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Andava pensando muito em coisas passadas. Mas de uma forma saudável, não doentia, olhando pra trás, se arrependendo. Isso era algo que raramente acontecia à Aya. Costumava se arrepender muito quando era adolescente, por tantas chances desperdiçadas, tantas histórias não vividas, imaginadas só na cabeça. Mas se parava pra pensar em velhos arrependimentos, ficava feliz por não ter feito. Como toda adolescente, sentia-se deslocada, mas Aya realmente era o peixe fora d’água, a julgar pelos amigos. Alguns já fumavam e bebiam. Aya odiava. Quer dizer, contaremos aqui uma fase ‘negra’ de sua vida, que preferia esconder.

Não podia julgar os amigos que fumava – aliás, poderia julgar alguém-, pois havia fumado por quase seis meses sem ninguém saber, apenas os amigos mais próximos daquela época. Sim, daquela época, porque não falava com mais ninguém. A última vez que tinha colocado um cigarro na boca, fez as contas, foi há 9 anos. 9 anos. Era só uma criança, praticamente. Como é que pode? Revoltou-se consigo mesma.

 

Lembra-se que tinha vontade constante de experimentar um cigarro. Não se sabia ao certo de onde vinha essa vontade, já que ninguém em casa fumava. Os pais eram super naturebas, nem consumiam álcool, só em ocasiões especiais, como Natal ou Ano Novo, em que forçam todos a fazer um brinde com a melhor champagne. Lembra dessa vontade doentia de saber como era, e como tomou a decisão. Decidiu também que faria isso sozinha, pois sabia bem que as amigas eram um tanto influenciáveis. Mas a melhor amiga da época em questão, Gabrielle, parecia ter adivinhado seus pensamentos, e comprou um maço na frente de Aya. E como Gabrielle não era o melhor exemplo de menina, convocou os amigos. E Aya compartilhou, já que essa era mesmo sua vontade. Mas deixou bem claro que não era sugestionável. E claro que ninguém acreditou. Todo mundo adora apontar o dedo.

 

E foi assim por seis meses, fumando escondida com os amigos. Para os pais não desconfiar, costumava passar em lojas de perfume com as amigas, e experimentar tudo quanto era fragrância no próprio corpo. Quando alguma vendedora preferia borrifar o perfume num papel, esfregavam o papel no pescoço. Mas tinha um problema maior: o cabelo. Esse impregna, e é fatal. A mãe de Aya bem que achou estranho sentir o aroma da fumaça na filha, já que elas apenas passeavam pelo shopping com as amigas. Mas Aya sempre tinha histórias mirabolantes na manga: uma vez inventou que um grupinho de meninas invejosas e idiotas que fumavam – claro, só idiotas fumam, reforçava -, as provocaram, jogando a fumaça do trago em cima delas. Como existe uma boa parcela de adolescentes cabeça-oca, a mãe acreditou. E Aya tratou de ser mais cuidadosa.

 

Mas passaram os seis meses e Aya percebeu que não tinha sentido fumar. Experimentou, como queria. Não gostou, mas havia algo de atraente naquilo, reconhecia. Em filmes, sempre havia alguma mulher poderosa que segurava o cigarro entre os dedos e parecia tão superior… Como também havia aquela decadente que fumava feito condenada, que geralmente também segurava (ou tentava) um copo de whisky. Aya não queria ser nem uma, nem outra. Queria ser ela mesma. E parou. Gabrielle fuma até hoje. Pelo menos é o que pensa Aya, já que as duas não se falam mais. Não têm contato. Na Primavera seguinte, pararam de se falar, mas explicaremos mais adiante. A última vez que a tinha visto, a viu de relance na prova do vestibular, isso há 5 anos. Fumava.

Nesse dia se deu conta onde poderia ter caído. Na verdade, já havia se dado conta quando tinha tomado aquela estúpida decisão. Mas sentiu um certo alívio de ter consciência. Aquela mesma consciência que a sempre fez pensar demais e perder oportunidades. Mas aparentemente, servia pra alguma coisa. Claro, às vezes lhe faltava também, como em qualquer ser humano que possui fraquezas. Porque há aqueles que não possuem, como bem diz Álvaro de Campos, quando diz que está farto de semi-deuses, e como canta Ben Folds em “Bastard”.

 Lembrou-se de uma certa festa, não lembra quando foi. Estava com seu primeiro namorado, Thomas. Lembra de uma tragada que deu em seu cigarro, apesar de ambos não fumarem. Mas Thomas era do tipo que se influenciava ou se impressionava quando os amigos se embebedavam ou fumavam como se fosse a última coisa do mundo. Talvez para se sentirem alguma coisa. Aya não gostava desse show, mas não sabia como funcionava esse mecanismo na época. Acabou dando uma tragada, e lembrou porque havia parado. Então, na verdade, fazia 6 anos.

 

Mais uma vez pensou, se tivesse conhecido Danny antes, talvez nunca tivesse colocado um cigarro na boca.

NP: Blinded – Beseech

Waltz – Craig Armstrong

My Sacrifice – Creed [life's irony].

The Answer Lies Within – Dream Theater