When love is not enough Setembro 8, 2008
Tudo que Aya queria no momento era pensar em outra coisa. Sentir aquela sensação indo embora, então logo se lembrou do que havia de bom em sua vida. Ligou para Danny, e marcou um encontro rápido, já que não tinham muito tempo de se ver durante a semana. Claro que não precisavam de desculpas pra se verem, mas Aya disse que estava com saudades, apenas. E era pura verdade. Saudades do presente.
Aya encontrou-se com Danny em sua casa. Os pais de Danny sempre voltavam tarde do trabalho. Não havia nada pronto para comerem, então resolveram fazer um lanche. Aya adorava cozinhar, mas não estava no clima.
- Como foi seu dia? Foi conversar com a Marie?
- Fui, Danny. Ela está melhor do que eu imaginava… Mas a história dela e do Yoshiki é complicada.
- É triste… Eles se amam, e não conseguem ficar juntos.
- Eu sei. Isso me incomoda, mas no fundo, eu sei que alguma coisa vai acontecer. Eu acredito de verdade que, quando duas pessoas se amam, elas conseguem ficar juntas. Problemas sempre existirão… Mas cabe a eles driblarem isso. Eu gosto de pensar assim.
- Que bom. Às vezes me pergunto se o amor é suficiente.
- Eu também me faço essa pergunta. Mas é como acabei de falar, eu acredito que enquanto há amor, é possível dar certo. Se duas pessoas se machucam, por problemas, por dificuldades… E elas resolvem dar as costas um ao outro, o amor se transforma. Não posso dizer que essas duas pessoas nunca mais vão se amar, ou que não se amam mais. Mas o amor transforma…
- Não sei por que quando escuto você dizer isso, me dói o coração. Me preocupa.
- Por quê?
- Porque eu vejo alguma coisa nos seus olhos, que me dizem algo que você não consegue me dizer em palavras.
Aya suspirou por um momento. Sentiu que deixou escapar algo que não deveria. E o problema não eram as palavras, e sim o peso delas sobre ela.
- Não se preocupe, Danny. Não é nada disso. Sabe que se estivesse mal com alguma coisa, eu diria a você.
- Eu sei. Mas me preocupo do mesmo jeito. Às vezes… Não sei… Sinto que me protege de alguma coisa.
- Não é isso. Não se preocupe, ok?
Aya o abraçou. Sentia Danny respirando fundo, e pensando na mentira que tinha acabado de dizer. Claro que protegia Danny. Protegia-o do incômodo que sentia em relação a tantas coisas. Ao mesmo tempo que queria dizer para que tudo isso fosse embora, tinha medo de machucá-lo. Mas talvez já fosse tarde demais. Estava fazendo isso sem que percebesse.
Liz, a irmã de Danny, juntou-se a eles. Liz era a típica adolescente revoltada da família. Estava no colegial, não gostava de ir a escola, de estudar, os pais recebiam reclamações do colégio, escapava das aulas com os amigos. Odiava ter Danny como o modelo de irmão mais velho. Apesar disso, se davam bem. Liz sempre pedia conselhos a Danny sobre sua vida amorosa. Danny era o típico irmão ciumento. Ao mesmo tempo que odiava a irmã saindo com caras que não conhecia, nunca negava um conselho a ela. Tinha esperança que Liz criasse juízo. Aya e Liz se davam bem também. Liz também era bem ciumenta em relação ao irmão, mas não admitia.
Aya ainda ficou um tempo com eles conversando, mas resolveu ir embora antes que os pais de Danny chegarem. Aya não gostava muito de sua futura sogra, embora nunca tenha tido um problema com ela, e vice-versa. Simplesmente não sentia algo de bom nela.
Despediu-se dos dois, e retornou pra casa. No caminho, fez um balanço do dia. Apesar de levemente atordoada com o que lhe acontecera, sentia que era bom ter Danny ao seu lado. E que isso, no momento, era mais importante que outra coisa do passado, embora nada ficasse muito claro em sua mente.
Talvez fosse o Verão.
NP: Leaving Entropia – Pain Of Salvation
You Learn About It – The Gathering
Every Stranger’s Eyes – Roger Waters
Muralhas Julho 9, 2008
Danny sentia que havia algo errado ultimamente, mas não sabia o que era. Aparentemente, estava tudo bem com Aya. Conversavam, riam, ouviam música juntos, fazia tudo o que sempre fizeram. Mas algo andava diferente. As conversas eram rasas, sobre coisas do dia-a-dia. Não havia nada de errado com isso, mas sentia falta das conversas que tinham antigamente.
Também pudera, não se viam mais com tanta freqüência: ambos estavam trabalhando e estudando muito. Apesar de estudarem na mesma Universidade, não tinha tempo pra se ver, pois estavam sempre em horário de aula. Não havia tempo para brechas. Viam-se no fim de semana, ou sempre que podiam. Danny pensava que talvez isso pudesse ter afetado um pouco a relação que tinham, que era tão mais próxima, e por causa da maldita rotina, as coisas estivessem um pouco mais devagar. Ou será que tinham ido muito rápido?
Desde que se conheceram, sempre tiveram longas conversas, justo os dois, que sempre se acharam sem assunto no convívio social. Mas um com outro, conversavam horrores, sobre tudo. E achavam engraçado isso. Era assunto que não faltava mais… E depois vieram as “DRs”, as discussão de relacionamento. Poderiam ficar horas falando disso.
Danny começou a se lembrar dessa época. Às vezes, era difícil ouvir o que Aya tinha a dizer. Em outras, era difícil dizer a Aya. Não era fácil para os dois conversarem de coisas passadas. A maioria das DRs eram assim, sobre coisas passadas, pra conhecerem um ao outro melhor, porque raramente tinham problemas na relação. Sempre foram muito abertos um com o outro, às vezes até demais. Houve uma época em que Aya não suportava mais essas DRs: não conseguia mais ouvir sobre outras garotas que já existiram na vida de Danny. Começava a imaginar como era, a pensar nos maus momentos que Danny passou, nas feridas que deixaram. Isso a deixavam mal. Danny no começo não ligava em saber da bagagem de Aya. Sabia praticamente tudo sobre Vincent e Thomas. Detestava Vincent, entre os dois. Em relação a Thomas, era apático, não ligava muito, talvez porque Aya falava menos dele. Só que Danny não sabia porque Aya não falava muito de Thomas: Aya achava que havia muitos detalhes da vida de Danny que eram parecidos com a vida de Thomas, no campo amoroso. Thomas provavelmente foi o que mais sofreu quando terminaram. E essa dor arrastou-se como um verdadeiro luto, por muito tempo. Talvez existisse até hoje, depois de muitos anos. Aya via isso em Danny também, por isso preferia não comentar muito.
Danny preocupava-se que poderia ser alguma coisa do passado de Aya voltando à tona. Alguma coisa incomodando-a. E se fosse, sabe que não seria nada relacionado a Thomas ou a Vincent. Só de pensar Danny sentia-se mal… Justo agora, que todas as muralhas haviam sido derrubadas. Por muito tempo, Danny construiu um muro, cada vez mais alto, para proteger-se de todas as coisas que lhe faziam mal. Claro que esse muro não é impenetrável, mas o protegia. Sabia defender-se sempre que precisava, mas odiava manter-se na defensiva. Não queria mais ter que se defender das pessoas que amava, não queria mais se proteger do mal que elas poderiam lhe causar. E foi quando encontrou Aya, que sentia que não precisava mais do muro, porque sentia que Aya se desfazia de cada tijolo junto com ele. Nunca havia sido tão sincero e tão ele como era com ela. Isso o fez derrubar todas as suas defesas, e viver livre.
Mas os dias passavam, e as coisas andavam estranhas. Sentia que não era a hora de conversar sobre isso. Sabe que Aya falaria quando quisesse. Mas Danny sentia um pequeno muro sendo construído novamente, para se proteger de uma eventual dor. Não queria sofrer. E sofrer agora, depois de tudo, parecia pior do que tudo que já havia passado.
Aliás, era engraçado a relação que tinha com Aya: nunca havia sido tão feliz com alguém. Mas ela também poderia ser a única pessoa que poderia magoá-lo profundamente. Era quem o fazia muito feliz, ou muito triste. E nos dois casos, não precisava de muito.
NP: The Scent Of Love – Munich Philharmonic Orchestra conducted bt Michael Nyman
Avemano Orchestral – Era
Another Life – Mostly Autumn
Apart – Lacrimosa
Perdas Junho 30, 2008
Aya pensava consigo mesmo que todos deveriam ter alguma perda em suas vidas. E que isso os fazia pensar diferente. FIcou pensando sobre mudar, depois da conversa com Yoshiki. Percebia que o primo, apesar das quedas, sempre manteve-se firme no que acreditava. E aquela frase “será que vale a pena?” ficou ecoando na cabeça.
Não queria revirar-se. Haveria algum momento que teria que fazer isso, limpar o pó de memórias antigas. Mas ainda sentia que não era hora. Quando o tempo não cura, o que então iria curar? Não se sentia mais ferida por coisas antigas, mas mesmo assim não gostava de lembrar. Começou a pensar então no sofrimento alheio.
Yoshiki, por exemplo. Lembra que o primo entrou em depressão pós-Alice. Ela era seu mundo, e apesar de terem ficado pouco tempo juntos, Yoshiki sempre diz que aprendeu muito com ela. Alice tinha muitos problemas na vida, e dizem que só os maus momentos é que nos fazem aprender sobre a vida. Talvez fosse o caso de Alice. Yoshiki gostava de seu ponto de vista, mas depois de algum tempo, depois de superar isso, conseguiu ver com os próprios olhos que não era bem assim. Percebeu que Alice tinha a visão do que ele julgava errado. Por causa de seus problemas, tendia a ver tudo com pessimismo, como se o mundo não tivesse mais jeito. Yoshiki partilhou dessa visão enquanto estava com ela, e um tempo depois. Mas percebeu que pensar assim, não era seu jeito de pensar. Isso o ajudou a superar a perda.
Depois de Alice, vieram outras. E veio Marie. Aya acreditava que Yoshiki nunca superaria a dor que Alice lhe causou. Nem mesmo Yoshiki acreditava. Mas quando Marie veio, depois de tanto tempo, as coisas mudaram. Era a primeira vez que Yoshiki voltou a acreditar que poderia ser feliz. E realmente foi, por quatro anos. Ninguém sabia o que aconteceria daqui pra frente, mas Yoshiki estava sofrendo novamente. Já sabia o caminho da dor, mas mesmo assim, percorria a mesma trilha. O buraco parecia maior agora, porque com Marie era feliz em tempo integral, com Alice, era quase sempre infeliz. Com Marie, seus planos davam certo, não apenas quando dependia dele. No começo do namoro, Yoshiki tinha medo, e era cauteloso com Marie. Acreditava que nada superaria o que sentia por Alice. Mas viu que era bobagem, porque com Marie aprendeu a sorrir de verdade, a ser ele mesmo. Aprendeu a deixar a dor, embora a dor fosse inspiradora. Mas sabe da importância de Alice em sua vida. Talvez, se não tivesse conhecido o outro lado do amor, talvez nunca teria se dado tanto à Marie. Talvez nunca tivesse se esforçado tanto em momentos que foram precisos.
Aya pensou nisso, e tirou algo positivo da perda. Claro, ninguém gosta de sofrer, mas todos sofrem, e se pelo menos pode-se aprender algo da dor, que seja algo de bom.
Pensou em Danny. Antes de conhecê-lo, Danny havia namorado uma garota. Isso causava-lhe um leve mal estar. Aya nem citava seu nome. Não era um ciúmes bobo de ex namorada, aliás, não era ciúmes. Aya tinha sim, raiva, assim como tinha de Alice. Raiva por ter feito Danny sofrer. Danny e essa garota que ainda não citaremos o nome, namoraram por algum tempo. Eram novos, eram problemáticos, estavam conhecendo a vida. E nesse tempo, sofreram. Danny parecia ter sofrido mais, porque não se desvencilhava da perda. Talvez aquele ditado, “pisa que eles correm atrás”, realmente é verdade, pensou Aya. Mas Danny parecia bem. Já haviam conversado longamente sobre esse assunto, embora fosse difícil. Eram sinceros um com o outro. Isso por si só já fazia bem à Aya, que nunca conseguia ser 100% sincera com outros, ou consigo mesma quando falava de dores passadas, ou de outros sentimentos relacionados a outros tempos. Isso também fazia diferença com Danny. Era muito feliz. Por isso era hora de largar restos de outros tempos, era hora de virar a página.
Danny se manteve fechado por muito tempo, desde então. Não se lembrava mais como era desde que havia trancado seu coração. No fundo, lembrava-se, e tinha esperança de que pudesse entregar a chave novamente para a ex namorada, ou alguém que o amasse, alguém que ele pudesse amar. Ele não sabia se era falta dela, ou falta de alguém. Na verdade, sabia que o problema estava nele: não sabia se poderia amar tudo o que havia amado novamente, daquele jeito, naquela intensidade. Aquilo tudo era ele, e se não pudesse ser ele novamente, então não queria. E batera o pé no erro, insistindo no antigo amor.
Mas conheceu Aya, e percebeu que não valia a pena tantas defesas, tantas muralhas. Derrubou-as, talvez ainda não por completo. Algumas coisas levam tempo, talvez mais do que tempo. Aya odiava perceber que aprendia mais com erros e decepções, e também a maioria das pessoas que conhecia. Por que não aprender com os acertos, com sorrisos, com momentos felizes, com momentos epifânicos? Era preciso perder para perceber o que se tinha? Era o velho papo de “intrínseco ao ser humano”? Aya detestava teorizar tudo, mas quando percebia, já tinha uma teoria pronta na cabeça, pra tudo, das coisas mais bestas às mais importantes. Seu lado cético racionalizava tudo, mas cada vez mais percebia que algumas coisas não são feitas para se usar a razão. Existiam coisas que ninguém explicava, e que ninguém precisava se perguntar por quê.
NP: Anthem – Kamelot
Verão Junho 25, 2008
Fazia um calor terrível, como diria Aya. Porque a maioria das pessoas gostava do verão, do calor, do sol, de ir pra praia e coisas assim. Aya não gostava, mas estava feliz porque as férias se aproximavam. Estava muito cansada com os estudos e o estágio. Infelizmente só teria férias da faculdade, o estágio não daria trégua.
- Podíamos viajar pra algum lugar. Pra Campos, fugir do calor.
- Meu problema é o estágio, Danny…
- Ah, é verdade… Puxa. Queria ficar um pouco com você, só nós.
- Eu sei. Eu também gostaria, você sabe. Mas não posso pegar férias no trabalho ainda.
- Eu sei… Faz tempo que não viajo.
- Eu também não. Mais um motivo pra eu querer, mas realmente não posso. Tenha paciência, Danny.
- Quando você pode, eu não posso. É muito chato isso, às vezes parece que a vida não ajuda a gente. Que adianta termos timing mas nossas vidas não?
- Porque tem coisas que não depende de nós… Não é?
- Às vezes dá vontade de ser adolescente, de ser inconsequente.
- Eu sei. É engraçado como é assim pra mim também. Não me importo com o amanhã, quero viver o hoje com você.
- Devíamos morar juntos. Mas falando sério. O que acha? Podíamos procurar algum lugar aqui perto, assim não ficaria ruim pra ninguém. Seu estágio não ficaria longe, nem o meu. Pra ir às aulas, iríamos juntos. Seria mais fácil passar tempo juntos, não apenas roubando alguns segundos durante a semana, ou esperando o fim de semana chegar. Moramos muito longeum do outro… isso atrasa as nossas vidas.
- Eu sei.
- E então? Que me diz?
- Ah, não sei… Ainda não ganhamos muito. Ganhamos o suficiente, sim. Mas e se eu perder o estágio? Ou você? Não temos segurança financeira ainda, Danny. Nenhum dos dois está ameaçado de perder o estágio agora, mas e se acontecer? Iríamos voltar pra casa dos nossos pais?
- Mas isso é um risco que todo mundo corre, não só com estágio, mas com o emprego.
- Eu sei, mas não somos formados ainda. Isso dificulta um pouco as coisas.
- Yoshiki e Marie não foram morar juntos quando eram bem novos?
- Ah, Yoshiki é um caso a parte… Ele se sustenta sozinho há muito tempo.
- É uma droga depender de dinheiro. Quem diz que sonhos não podem ser comprados, mente… Pra tudo precisamos dessa droga da papel…
- Infelizmente, ou felizmente, é assim que o mundo funciona. Sei que dá vontade de jogar tudo pra cima… Mas a gente sabe que não dá pra fazer as coisas assim.
- Eu sei. É ruim ter que ser racional… Tem medo de se arrepender?
- Claro que não. Aliás, quando estou com você, tenho certeza de tudo. É bom isso. Sempre me passa confiança, de que posso acreditar, de que posso derrubar muros. Perdi todas as minhas defesas…
- É assim comigo também. Por isso gostaria de passar mais tempo com você.
- Bom, mas as férias vêm aí, vamos aproveitar pra colocar algumas coisas em dia!
- Ver filmes e seriados, jogar video-game, ouvir música juntos? Eu topo!
Eram coisas simples, mas que Aya gostava de fazer com Danny. Divertiam-se muito juntos, gostava de passar seu tempo com ele. Quando não estava na aula ou no estágio, estava com ele. Seus pais sempre reclamavam que nunca mais parou em casa. Seu irmão mais novo também reclamava. Josh adorava ‘alugar’ Aya para jogar video game, ou mesmo só conversar. Tinha 15 anos. O do meio, Chris, tinha 20. Era a ovelha negra da família, como todo bom irmão do meio. Era o que não ia bem na escola, no colégio, e agora na faculdade. Era o que não passava as noites em casa, era o que não dava nenhuma explicação. Era o que desaparecia e achava normal. O filho mais problemático. Aya e Chris costumavam se dar bem, mas Chris se afastou da família nos últimos anos, em geral, incluindo Aya. Odiava o fardo de nunca ser como a irmã “perfeita”. Não via a hora de sair de casa. Os pais achavam que a rebeldia passaria com o fim da adolescência, mas só vinha piorando.
- E o Chris, andou aprontando muito?
- Ah Danny… Esse fim de semana pegou o carro do meu pai e foi viajar, sem avisar. Apareceu no domingo, quando minha mãe já tava com o telefone na mão ligando pra polícia. Ele não toma jeito…
- Já conversou com ele? Deveria tentar.
- Eu já tentei, mas não consigo mais atingi-lo, não sei onde encontra-lo… Entende? Ele se mantém afastado. Tenho medo que esteja com algum problema, na verdade.
- Acho que não. Deve ser uma fase. Já faz um ano que estamos juntos, mas nunca o conheci. Ele nunca está na sua casa.
- Isso é verdade. Gostaria que se conhecessem. Talvez conseguisse conversar com ele.
- Marca um jantar, ou um almoço. Avisa ele.
- Duvido que iria… mas, podemos tentar, né? Boa idéia, Danny.
E assim foi marcado um jantar. Ainda escolheram o lugar preferido de Chris: uma churrascaria. Danny não disse que não ia, mas também não confirmou, mas Aya estava confiante de que iria aparecer.
- Não acho que ele venha… sabe como é seu irmão. Vamos pedir as bebidas. – disse Allan, pai de Aya.
- Calma, pai. Nem atrasado ele está.
- Ele disse que viria? – perguntou Sophia, a mãe de Aya.
- Ele não disse que não viria. Disse que pensaria. Acho que pra ele isso é um sim.
- Chris não vem, ele anda muito chato. – disse Josh.
- Calma, pessoal, não desistam. Afinal, quero conhecer o único que ainda não conheço da família! Pensamento positivo! – tentou animar Danny.
- Ah Daniel, nosso filho anda muito problemático. Se todos os garotos fossem como você, o mundo seria mais fácil! – disse Sophia.
- Ih, puxa-saco… – murmurou Aya.
S: O que foi, filha?
Aya: Nada, mãe. Bom, se quiserem, peçam as bebidas, então. Mas se Chris chegar e verem que nem esperaram por ele, por pensar que ele não viriam, vai ficar bravo.
S: É, acho que tem razão. Vamos dar uma chance ele. Mas por que não liga?
Aya: Mãe, paciência. Espera um pouco.
Esperaram por mais uns 10 minutos. Aya não falava muito com ninguém, não tirava os olhos da porta. Esperava ver Chris a qualquer momento. Sabia que os pais não conseguiriam fazer Chris vir por nada nesse mundo, mas tinha esperança que seu irmão ainda a considerava. Danny conversava com Josh, que ria de suas piadas sem graça. Danny se divertia também, pelo menos descontraíam o ambiente. Os pais de Aya conversavam baixo entre si achando que Chris não viria. Yoshiki também foi convidado pra ocasião, mas também estava atrasado.
Aya: Vou ligar pro Yoshiki. Do jeito que ele é cabeçudo, pode ter esquecido da gente.
S: Seu primo nunca foi um exemplo de pontualidade. Mas não esquece dos compromissos que tem com você.
Aya: Bem, isso é verdade. Não vou ligar, nesse caso. Vamos esperar.
Mais cinco minutos. Cada minuto parecia uma eternidade. Os garçons já faziam pressão, esperando ao lado para que a qualquer momento fizessem o pedido. Aya vê Yoshiki entrando, e se anima com a chegada do primo. Mas vê que ele parece conversar com alguém, e logo pensou que tinha trazido alguém junto, talvez até mesmo Marie. Mas para a supresa de todos, Chris entra junto com ele, dando risada. Fica um pouco sisudo ao avistar a família, não porque não gostava dela, mas como proteção. Quando se é a ovelha negra da família, não se pode dar brechas.
Aya: Eu não disse que ele viria? – vangloriou-se Aya.
Y: Desculpem o atraso, pessoal. Mas olha quem eu encontrei no caminho pra cá. Daí dei uma carona pro perdido.
C: Também me atrasei um pouco, porque na verdade o perdido aqui é o Yoshiki. Não sabia chegar aqui, e ainda insistia que eu estava errado!
Os pais de Aya estavam felizes pela presença de Chris, que foi devidamente apresentado a Danny. Chris sentou ao lado de Aya e em frente a Yoshiki, o lugar onde se sentia mais confortável na mesa. Estava um pouco desconcertado, como se não fosse sua própria família, com quem convivera por 20 anos. Era estranho como as coisas mudavam de uma hora pra outra, pensou. Olhou para Josh, e ele não era mais aquele pivete 5 anos mais novo que ele, que sempre quebrava suas coisas. Já tinha alguns pêlos de barba. Aya não mudara muito, parecia que tinha sempre a mesma cara. Agora tinha Danny, que parecia que era O cara para Aya. Já tinha ouvido falar dele, e tinha ficado feliz por ver que ele não era um qualquer, e Aya parecia feliz. Gostava do seu primo Yoshiki, ele era divertido, e parecia que também tinha sido a ovelha negra da família. Seus pais… Ainda tinha a mesma opinião sobre os pais. Eram uns chatos.
S: Obrigada, Yoshiki, por trazer Chris pra cá.
Y: Deve agradecer à Aya. Eu não fiz nada demais. Pelo menos ele parece estar se divertindo. Deviam conversar mais com ele.
Allan: Ele não conversa conosco. É difícil, Yoshiki. Mas obrigado pelo apoio. Talvez seja mais fácil que você converse com ele.
Y: Sim, viemos conversando. Ele ainda é o mesmo Chris, só um pouco confuso. Disse que não está gostando da faculdade. Talvez devessem ouvi-lo sobre o que ele tem a dizer sobre isso.
Allan: Como ele pode não gostar de Engenharia?
Y: Tio, não me leve a mal, mas… Acho que ele nunca quis. Deveria deixa-lo fazer o que ele gosta. Sabe que as coisas não funcionam assim.
S: Eu também sempre achei isso.
Allan: Mas você sempre apoio que ele fizesse Engenharia!
S: Ah, achava que ele seria feliz. Mas se não está, deveríamos ouvi-lo, Allan.
Allan: Conversamos mais tarde. Vamos comer, é pra isso que viemos, não?
A noite seguiu agradável, para todos, aparentemente. Aya se bastou com a presença de Chris. Yoshiki estava feliz de ver Aya contente, e seus tios também. Danny, Yoshiki e Chris conversavam bastante entre si, e tinham marcado jam sessions no estúdio de Yoshiki. Aya se animara com isso, talvez assim pudesse se reaproximar de Chris. Josh se divertiu com as batata fritas sem o controle da mãe, e com as piadas de Danny. Os pais de Aya estavam felizes também por ver a família unida, e estavam esperançosos. E Chris… estava feliz. Sentira que parara no tempo com a família. E viu que eles não eram assim tão chatos. Ainda havia uma coisa que o incomodava, mas tentava ignorar. Gostava deles, e queria se aproximar, sem dar o braço a torcer. Era um tanto orgulhoso.
Afinal de contas, o Verão não era tão ruim assim.
NP: Seize The Light – Yoshiki
Lilium Cruentus – Pain Of Salvation
DVORÁK’s Symphony N°9 – Allegro con fuoco (infelizmente não sei a orquestra que interpreta)
Revelações Junho 25, 2008
- Hey, isso é muito bom! – exclamou Danny.
- Isso soa bem NWOHBM, bem Iron Maiden! – empolgou-se Aya.
- É por isso que queria mostrar a vocês. Sabia que iam gostar. O que acha, Marie?
- Sabe que não gosto esse tipo de música…
- Está produzindo esses caras? – perguntou Danny. Eles são bons.
- Ainda não respondi. Me mandaram essa demo, estou pensando. O que acham? Mais uma banda de metal, ou têm futuro?
- Precisaria ouvir mais, mas eu acredito que eles têm potencial. Têm bons instrumentistas.
- Também achei isso, Aya. Mas precisava da opinão de profissionais, né?
Aya e Danny riram.
- Cara, se for produzir esses caras, me chama pra ver quando eles forem gravar. Achei muito legal uma banda nova assim. – Disse Danny.
- Claro. Vou falar com o tal do produtor. Quando acertar tudo, aviso vocês. Obrigado pela opinião de vocês. Bom, vamos ver se esses sanduíches estão bons!
- Yoshiki, poderia ter me avisado que eles viriam. Nem preparei nada.
- Eu avisei de última hora. Mas com certeza eles não se importam.
- Não mesmo. E os sanduíches estão bons. – disse Danny.
- A gente podia ver um filme. – sugeriu Aya.
- Boa idéia. Yoshiki comprou alguns DVDs novos. – respondeu Marie.
- Ah, estava pensando em ir ao cinema.
- Vamos, Marie? Faz tanto tempo que não saimos.
- Não sei… Não me sinto bem.
- O que tem, Marie? – perguntou Aya.
- Eu… só não me sinto bem pra sair. Preferia ficar em casa.
- Marie, vamos. Podemos ver o filme, comer naquele restaurante que adora depois.
- Yoshiki, acabamos de comer. Já disse, não me sinto bem. Vocês podem ir se quiserem…
- Tudo bem, Marie. Podemos ver um DVD aqui mesmo. – disse Danny.
Marie levantou-se e saiu da sala.
- Marie… – chamou Yoshiki.
Marie subiu para o quarto. Yoshiki foi atrás de Marie. Aya e Danny ficaram desconcertados, era uma situação muito delicada. Era possível ouvir apenas Yoshiki, pedindo para Marie abrir a porta do quarto, enquanto ela apenas soluçava lá dentro. Depois de um tempo, Yoshiki voltou para baixo.
- Desculpe, Yoshiki. Não devia ter comentado. – disse Aya.
- Sabe que não é sua culpa. Queria mesmo que estimulasse Marie a sair de casa um pouco. Eu também não aguento ficar trancafiado aqui por causa dela… mas não se o que fazer.
- O que o psicólogo tem dito?
- Que ela nunca se recuperou daquele dia… que o trauma foi grande, desde o ataque, até a perda do bebê… que nunca existiu.
- Ainda hoje ela acha que estava grávida? Mesmo vendo exames?
- Ela nega. Ela diz que sabe o que sentia, e só ela sabia. Isso dificulta mais as coisas. Não sei o que fazer. Se é melhor aceitar a visão dela, ou se é melhor fazê-la encarar a realidade.
Aya sentia-se triste por ver Yoshiki tão derrotado. Sentia-se impotente. Yoshiki sempre a ajudou, e queria poder retribuir. Odiava vê-lo sofrer tanto, justo ele, uma das pessoas que mais importava em seu mundo. Preferia que a dor que sentia passasse pra ela mesma. Era mais fácil lidar com sua dor do que com a dos outros.
- Bom, mas vamos ver um filme então. Não quero ficar pensando nisso. Que tal um filme romântico?
- Ih, aí depende. Sem mela-cueca, hein? – descontraiu Danny.
- Cara, existe filme romântico não mela-cueca? Bom, esse tem cara de ser muito. Mas também parece bom. “PS Eu te amo”.
- Ah, queria ver esse faz tempo!! Vamos ver esse! – disse Aya.
Yoshiki tinha uma casa bem confortável. Foram para uma sala onde havia um projetor, e sofás confortáveis, mas preferiram jogar-se nos puffs no chão. O filme era realmente muito melancólico: Aya já deixara escapar lágrimas nas primeiras cenas. Yoshiki olhou para a prima enxugando as lágrimas, e pensou consigo mesmo, “ela não muda…”. O engraçado é que Danny também se emocionava durante o filme. Yoshiki pensou em tirar um sarro, mas achou aquilo interessante. Percebeu o quanto Danny era sensível também, assim como Aya. E como era difícil encontrar pessoas que conseguiar expôr fraquezas assim. Yoshiki sentia-se travado. Sentia-se sempre transbordando, mas nunca conseguia explodir. Não sabia a que atribuir isso. Eram muitas coisas do passado, e do presente, que interferiam em seu futuro. Sem que percebesse, observou Aya e Danny juntos. Sentia falta de ser feliz assim também. Sentia-se mais velho do que realmente era. Sentia que envelhecera tanto no último ano, sentia-se estagnado. Eram tantas coisas pra sentir, que não sentia mais a si próprio.
O filme acabou com muitas lágrimas. Mas com sorrisos de ter visto a um bom filme. Danny despediu-se de Yoshiki e Aya, porque enfretaria um plantão no hospital onde fazia residência. Ainda não estava na hora, mas foi voluntariamente para saber como era a rotina de um hospital, e hoje era o grande dia. Yoshiki chamou um táxi para Danny.
- Acho que vou pegar um também, está tarde. – disse Aya.
- Então fica aqui hoje. Avise a sua mãe. Já está muito tarde.
Aya iria dizer que era melhor voltar pra casa, mas percebeu que o primo estava realmente abatido. Sentia que ele não queria ficar sozinho. Ligou para a mãe, que concordou sem problemas, afinal era Yoshiki. Aliás, essa era a desculpa que Aya sempre dava quando passava a noite fora com Danny. Avisava que ia dormir na casa do primo, e a mãe nunca desconfiava, já que confiava em Yoshiki de olhos fechados.
- Que bom que resolveu ficar. Acho que preciso conversar com alguém. E que bom que esse alguém é você… Se importa? – perguntou Yoshiki, acendendo um cigarro.
- Sabe que me importo. Mas, vou fazer o quê?
- Não se importava há alguns anos.
- Enfim…
- Aya, eu quero parar.
- Parar o quê?
- Isso tudo. Você viu.
- Sim, mas seja específico.
- Isso está… me matando. Por dentro e por fora. Eu nunca mais fui o mesmo há um ano. Minha vida virou um inferno. Acordo todos os dias no meio da noite pra saber se Marie está bem, não consigo dormir. Tenho tomado calmantes, coisas pra me manter acordado, tenho feito uma bagunça com a minha saúde. Há dias que não vejo o sol. E é assim sempre. Perdi contato com muita gente. Só tenho trabalhado. Às vezes não posso receber meus clientes em casa. Me sinto triste ou revoltado todos os dias. Voltei a ser triste o tempo todo…
Aya não sabia o que dizer, enquanto Yoshiki a encarava por alguma resposta. Mas os dois não precisavam de respostas. Bastava um olhar. Aya não precisava dizer que sentia muito. Yoshiki sabia. Os dois sempre se espantavam com a ligação que tinham. Um sabia o que o outro sentia, sem dizer uma palavra. Abraçaram-se longamente enquanto Yoshiki finalmente conseguia desafogar.
NP: All Through The Night – Cyndi Lauper
Pressure – Anathema
Ask The Lonely – Journey
Cry With a Smile – After Forever
Run For a Fall – Epica
Scars Junho 25, 2008
- Aya? É o Yoshiki.
- Claro que eu sabia que era você.
- Não quer vir aqui em casa? Queria que desse umas opiniões sobre um trabalho. Marie quer vê-la também.
- Ah, ótimo… Estou com saudades de vocês também. Vou, sim. Importa se eu for com o Danny?
- Aquele magrelo?
- Yoshiki…
- Just kidding. Claro, pode vir, não precisa nem pedir. Um beijo, até daqui a pouco então.
Fazia um pouco mais de um ano daquele triste incidente. Yoshiki estava melhor, já Marie, ninguém sabia. Fazia tratamento psicológico, e era difícil entender o que realmente se passava com ela. Yoshiki não saia de perto, estava sempre a vigiando. Tinha medo desde aquele dia no hospital. Isso a irritava, pois, na sua versão, nunca tentou se matar.
- Aya! Danny, entrem!
Yoshiki abraçou Aya fortemente, praticamente entrangulando-a. Os dois riram. Eram muito amigos, sentiam falta um do outro quando não estavam perto. Haviam morado juntos quando eram mais novos, quando a mãe de Yoshiki decidira ir para outro país. O pai de Yoshiki havia morrido quando ele tinha sete anos, então Yoshiki cresceu com Aya por muitos anos. Mesmo depois que a mãe de Yoshiki voltara, estavam sempre juntos, estudaram juntos no mesmo colégio, e mesmo com a diferença de idade, estavam sempre perto. As famílias também eram bem próximas. A mãe de Yoshiki era irmã do pai de Aya. Também se davam bem, na família de seis filhos.
Danny até sentia uma ponta de ciúmes. Mas procurava entender a relação fraternal dos dois, no fundo ficava feliz que Aya tinha um alguém como Yoshiki.
- E Marie, onde está?
- No quarto, descansando.
- Como ela está?
- Hoje ela está bem… Eu acho.
- Como estão as coisas?
- Um pouco mais fáceis, Aya. Há dias que são difíceis. Mas ela tem melhorado.
- Sabe que pode contar comigo, pro que precisar, não sabe?
- Claro. Bom, mas vamos falar de trabalho. Venham, quero a opinião dos dois sobre esse trabalho novo. Danny, você toca guitarra, não toca?
- Piano.
- Ah é, guitarra era o outro namorado da Aya…
- Yoshiki? – reclamou Aya.
- Danny, só estou brincando. Você é o único deles que eu gostei, só por isso eu brinco com você.
- Ahn… Tudo bem, eu não ligo não. – disse Danny, descontraído, enquanto Aya olhava pra Yoshiki com um olhar de reprovação. Ele respondia com um olhar de ‘o que foi?’
- Yoshiki? – era Marie, descendo as escadas.
- Marie!! – disse Aya, correndo para abraçá-la.
- Como vai, Aya? Faz tanto tempo que não nos vemos.
- Eu sei. Olá, Daniel.
- Olá Marie, tudo bem?
- Querida, venha, vamos ouvir aquele novo projeto do Gus.
- Eu vou fazer algo para comermos, e já vou.
- Hum… está bem.
Enquanto Marie seguiu para a cozinha, Yoshiki pediu para que Aya fosse junto. Não gostava de deixar Marie sozinha. Aya achou desnecessário, mas mesmo assim fez o que o primo pedia. Enquanto isso, Yoshiki entrou no estúdio que tinha em casa com Danny.
- Eu ajudo, Marie. Que faremos de lanche?
- Ah, obrigada Aya. Hum, podemos fazer sanduíches? Não me sinto disposta a cozinhar. Yoshiki nem me avisou que viriam, senão teria preparado alguma coisa.
- Não se incomode. Eu e o Danny trouxemos essas tortas de morango.
- Hum, estão com uma cara ótima. Vou guardar pra sobremesa.
Depois de guardar a torta, Marie pegou o pão de forma e uma faca para cortá-los ao meio. Aya se incomodou ao ver Marie com a faca, e pediu para cortar os pães.
- Deixe que corto. É que não sei onde estão os ingredientes, assim você vai adiantando.
- Está bem… Mas… Sabe Aya, eu não vou me matar com essa faca de cozinha, se é o que está pensando.
- Marie, por que diz isso?
- Nada, nada. Vou pegar os ingredientes, então.
Aya se sentia incomodada por Marie desde aquele dia. As coisas nunca mais foram a mesma. Na verdade, Marie nunca mais foi a mesma. Todos foram transformados depois daquele dia, mas Marie parecia não seguir em frente. Estava sempre apática, alheia ao mundo. Estava sem trabalhar, ficava ociosa em casa. Yoshiki acabou recluindo-se mais por causa de Marie. Deixava-a sozinha o mínimo possível. Isso o prejudicou de certa forma, perdera alguns contatos por faltar em reuniões, mas ia se virando. Ainda sentia revolta por tudo que acontecera. Acompanhava o caso de perto, sem que Marie soubesse de detalhes. O criminoso foi considerado culpado, porém com desequilíbrio mental. Yoshiki não aceitava isso. Queria que o criminoso pagasse na cadeia.
Houve um dia em que Aya fora visitá-los. Entrou sem bater, visto que a porta estava aberta. Achou que Yoshiki gostaria da surpresa. Aya entrou de mansinho, e viu Yoshiki tocando piano. Observou de longe, gostava do primo tocando. De repente, Yoshiki se transformou. Marretava as teclas do piano com agressividade, caía em desespero. Chorava com as mãos na cabeça, sem saber o que fazer. Aya segurou-se, e resolveu ir embora. Já tinha visto o primo em outras situações parecidas, mas preferiu deixá-lo.
—–
- Quer dizer então que o outro cara tocava guitarra? Eu não sabia disso.
- Eu estava brincando, Danny. Se tocava, eu nem sei. Não fazia muita questão de saber… Nunca gostei de nenhum deles. Até tentei, pela Aya, mas… Você tem sorte.
- Humm…
- Brincando de novo. Falando sério, nunca realmente achei que eles fossem os caras certos pra ela. Bem, quem sou eu pra decidir, você deve estar pensando… Mas eu a conheço bem, e sempre achei que ela merecia coisa melhor.
- Eu sou a coisa melhor, então? – brincou Danny.
- Ná vá ficar se achando.
Yoshiki brincava, mas sempre se preocupou com Aya. Até demais. Às vezes discutiam por causa da interferência. Bancava o irmão mais velho ciumento. Realmente nunca achava ninguém bom o suficiente para Aya, mas gostava de Danny. Percebia suas intenções, sabia que era um bom rapaz. Ao contrário de alguns.
NP: Unnamed Song – Violet UK
Heroines – Diablo Swing Orchestra
Flowers – Rozz Williams
O passado condena Junho 24, 2008
Andava pensando muito em coisas passadas. Mas de uma forma saudável, não doentia, olhando pra trás, se arrependendo. Isso era algo que raramente acontecia à Aya. Costumava se arrepender muito quando era adolescente, por tantas chances desperdiçadas, tantas histórias não vividas, imaginadas só na cabeça. Mas se parava pra pensar em velhos arrependimentos, ficava feliz por não ter feito. Como toda adolescente, sentia-se deslocada, mas Aya realmente era o peixe fora d’água, a julgar pelos amigos. Alguns já fumavam e bebiam. Aya odiava. Quer dizer, contaremos aqui uma fase ‘negra’ de sua vida, que preferia esconder.
Não podia julgar os amigos que fumava – aliás, poderia julgar alguém-, pois havia fumado por quase seis meses sem ninguém saber, apenas os amigos mais próximos daquela época. Sim, daquela época, porque não falava com mais ninguém. A última vez que tinha colocado um cigarro na boca, fez as contas, foi há 9 anos. 9 anos. Era só uma criança, praticamente. Como é que pode? Revoltou-se consigo mesma.
Lembra-se que tinha vontade constante de experimentar um cigarro. Não se sabia ao certo de onde vinha essa vontade, já que ninguém em casa fumava. Os pais eram super naturebas, nem consumiam álcool, só em ocasiões especiais, como Natal ou Ano Novo, em que forçam todos a fazer um brinde com a melhor champagne. Lembra dessa vontade doentia de saber como era, e como tomou a decisão. Decidiu também que faria isso sozinha, pois sabia bem que as amigas eram um tanto influenciáveis. Mas a melhor amiga da época em questão, Gabrielle, parecia ter adivinhado seus pensamentos, e comprou um maço na frente de Aya. E como Gabrielle não era o melhor exemplo de menina, convocou os amigos. E Aya compartilhou, já que essa era mesmo sua vontade. Mas deixou bem claro que não era sugestionável. E claro que ninguém acreditou. Todo mundo adora apontar o dedo.
E foi assim por seis meses, fumando escondida com os amigos. Para os pais não desconfiar, costumava passar em lojas de perfume com as amigas, e experimentar tudo quanto era fragrância no próprio corpo. Quando alguma vendedora preferia borrifar o perfume num papel, esfregavam o papel no pescoço. Mas tinha um problema maior: o cabelo. Esse impregna, e é fatal. A mãe de Aya bem que achou estranho sentir o aroma da fumaça na filha, já que elas apenas passeavam pelo shopping com as amigas. Mas Aya sempre tinha histórias mirabolantes na manga: uma vez inventou que um grupinho de meninas invejosas e idiotas que fumavam – claro, só idiotas fumam, reforçava -, as provocaram, jogando a fumaça do trago em cima delas. Como existe uma boa parcela de adolescentes cabeça-oca, a mãe acreditou. E Aya tratou de ser mais cuidadosa.
Mas passaram os seis meses e Aya percebeu que não tinha sentido fumar. Experimentou, como queria. Não gostou, mas havia algo de atraente naquilo, reconhecia. Em filmes, sempre havia alguma mulher poderosa que segurava o cigarro entre os dedos e parecia tão superior… Como também havia aquela decadente que fumava feito condenada, que geralmente também segurava (ou tentava) um copo de whisky. Aya não queria ser nem uma, nem outra. Queria ser ela mesma. E parou. Gabrielle fuma até hoje. Pelo menos é o que pensa Aya, já que as duas não se falam mais. Não têm contato. Na Primavera seguinte, pararam de se falar, mas explicaremos mais adiante. A última vez que a tinha visto, a viu de relance na prova do vestibular, isso há 5 anos. Fumava.
Nesse dia se deu conta onde poderia ter caído. Na verdade, já havia se dado conta quando tinha tomado aquela estúpida decisão. Mas sentiu um certo alívio de ter consciência. Aquela mesma consciência que a sempre fez pensar demais e perder oportunidades. Mas aparentemente, servia pra alguma coisa. Claro, às vezes lhe faltava também, como em qualquer ser humano que possui fraquezas. Porque há aqueles que não possuem, como bem diz Álvaro de Campos, quando diz que está farto de semi-deuses, e como canta Ben Folds em “Bastard”.
Lembrou-se de uma certa festa, não lembra quando foi. Estava com seu primeiro namorado, Thomas. Lembra de uma tragada que deu em seu cigarro, apesar de ambos não fumarem. Mas Thomas era do tipo que se influenciava ou se impressionava quando os amigos se embebedavam ou fumavam como se fosse a última coisa do mundo. Talvez para se sentirem alguma coisa. Aya não gostava desse show, mas não sabia como funcionava esse mecanismo na época. Acabou dando uma tragada, e lembrou porque havia parado. Então, na verdade, fazia 6 anos.
Mais uma vez pensou, se tivesse conhecido Danny antes, talvez nunca tivesse colocado um cigarro na boca.
NP: Blinded – Beseech
Waltz – Craig Armstrong
My Sacrifice – Creed [life's irony].
The Answer Lies Within – Dream Theater
Inverno Junho 24, 2008
Anunciaram o show da Cyndi Lauper. Se fosse outra época, iria ver, mas hoje em dia, não dava mais bola pra pseudo-diva dos anos 80 da voz de taquara rachada. Seja lá o que isso significa…
Seria legal ouvir alguns hits como “Time After Time”, “True Colors”, “All Through The Night”, suas preferidas. Mas lembrou também que ela não era mais dessa laia, e agora preferia cantar jazz e blues, e provavelmente cantaria “At Last”. Então, tudo bem.
Mas isso a fez matutar sobre um certo dia em um certo Inverno. Lembrou-se do ex-namorado, Vincent. Não porque ele gostava de Cyndi Lauper, mas porque estava com ele quando gostava muito. E pensou, se estivesse com ele ainda, ele provavelmente iria tirar um leve sarro dela, alertando para o show da cantora preferida dela, embora não fosse. Pensou em como ele diria em tom provocador, já que ele detestava, achava “fraquinho”. Apesar de, mesmo nessa época, ela também não achar que a Cyndi Lauper era grande coisa, gostava de ouvir, simplesmente por ouvir. E detestava ter que explicar por quê. Aliás, detestava explicar o porquê de tudo, odiava dar satisfações a quem quer que fosse.
E isso a fez pensar em outra coisa: que Danny não iria correr pra avisá-la que a pseudo-diva faria um show em SP. Por que não? Porque ele não acompanhou essa fase mais frenética de Aya, ainda não se conheciam. Sabia que ela gostava de umas duas músicas ou três, mas isso não traria a urgência da notícia. E ficou triste. Triste porque foi uma fase, que apesar de nada tão especial, Danny não acompanhou, não viveu. Ela não viveu com Danny.
Queria ter conhecido Danny antes daquele Inverno do qual não sentia saudades.
NP: Qualms Of Conscience – Diablo Swing Orchestra
Primavera Junho 20, 2008
Uma de suas músicas favoritas era ‘The Rain Song’, do Led Zeppelin. Aya gostava, porque falava das estações, de como mudavam as coisas, a vida. Sentia que era assim consigo mesma. Mas a estação que mais gostava era a Primavera. “This is spring time of my loving…” era a frase que “estampava” seu fichário da faculdade. Como se a Primavera fosse suficiente.
Gostava das flores, e claro, principalmente nesta época. Gostava de andar pela universidade onde estudava e ver a grama bem aparada, pois podia enxergar as flores. Tinha uma vontade imensa de pegá-las, colher algumas e levar consigo, ou mesmo se ornamentar com alguma pequena flor. Mas sabia que as flores pertecem à natureza, e que estavam ali, cumprindo seu papel.
Imaginava como seria seu quintal quando tivesse seu próprio canto. Não sabia se teria um quintal, caso morasse num apartamento. Mas com certeza haveria vasos de flores espalhados em alguma varanda. Flores dentro de casa, sempre. Questionava-se como a mãe tinha disposição de ir comprar coisas de culinária diariamente no mercado, quando precisava cozinhar e queria algo diferente. “Cozinhe com o que tem”, pensava. Mas a mãe adorava cozinhar, e não hesitava em ir buscar champignons se fosse fazer um strogonoff. Pensava que seria assim com as flores.
Na casa em que mora com os pais, não havia muitas flores ou mesmo plantas. O pai era alérgico ao pólen, e a mãe nunca gostou de “mato”. Achava a casa cinzenta pela ausência de uma orquídea, de uma tulipa, de gérberas, de violetas, de dálias, de margaridas, de lírios e ah, as rosas, suas preferidas. Gostava da pomposa rosa colombiana, mas a rosa simples ainda era sua predileta. Sempre foi. Havia sonhado aquele dia que ganhara rosas amarelas, fechadas. Gostava de sentir a maciez das pétalas, como se fosse veludo. Lembrara do sonho ao caminhar na universidade.
Gostava do pôr do sol. Bem, quem não gosta? Mas gostava de reparar. E achava o pôr do sol mais bonito também na Primavera. Sempre chegava à faculdade neste horário, então sempre teve o privilégio de caminhar observando o horizonte. Sentia-se bem assim. Como se não precisasse de mais nada.
Aya normalmente se sentia feliz com coisas assim, “pequenas”, apesar de sempre ter sonhado grande. Sempre foi uma daydreamer incorrigível. Impressionava-se como poderia encontrar paz em coisas tão simples. Por isso sempre gostou muito de flores, do pôr do sol, da Lua, das estrelas, da noite, de um céu límpido ou cheio de flocos de nuvens branquinhas, do silêncio da madrugada, de animais, da natureza. Muitos dos que a conheciam, provavelmente não esperava que fosse assim. Nunca quis se mostrar muito ao mundo; usava sua máscara todos os dias, mas não achava que isso fosse ruim. Bem, talvez tivesse mais amigos se mostrasse a verdadeira Aya. Ou menos. Mas não importava, pois gostava dos seus. Mas claro, sabia que a máscara era também muito friável e efêmera. Ninguém conseguia se esconder por completo, ou por muito tempo. Assim esperava.
Só havia algumas pessoas com quem conseguia ser ela mesma, sem ter que esconder, sem ter vergonha de falar de seus gostos, de suas vontades, de seus medos. Sua amiga Sarah, que conhecia há 17 anos. Estavam com 24 anos de idade agora. Conheceram-se no pré-escolar. Odiavam-se. Odiaram-se até a segunda série. Passaram a ser as melhores amigas. Odiaram-se novamente na sétima série. Voltaram a ser as melhores amigas. E desde então, tem sido assim. Voltaremos a falar de Sarah mais adiante. Digamos que ela merece um capítulo à parte.
Aya estava apaixonada. Muito. Amava demais seu namorado, Danny. Era outra pessoa que confiava completamente, sem pestanejar. Namoravam há um ano, pouco tempo para alguns, tempo suficiente para outros. Ambos se conheciam bem. Sabiam da vida um do outro, de alegrias, de descontentamentos, de gostos, de medos, de sonhos, e partilhavam muitos deles. Era por isso que haviam de se encontrar: eram parecidos. Além disso, combinavam, o que são duas coisas diferentes. O que era essencial para que dessem certo, e sabiam disso.
Danny também cursava a mesma universidade, porém faziam cursos bem distintos: Aya optou por Engenharia, embora gostasse tanto da natureza, nunca se achou capaz de lidar com pessoas ou animais. E outra, gostava muito de Exatas, e se dava muito bem com número e coisas muito mais complexas. Danny cursava Medicina, e se dedicava quase que integralmente ao curso.
Era Primavera agora. Mas em São Paulo, tem-se a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno num único dia. Apesar de ser Primavera, os dias estavam frios. Aya até prefere o frio do que o calor. Bem, já houve a época do Outono ser o eleito, assim como o Inverno. Mas nunca o Verão. Embora às vezes ficasse feliz quando se sentia aquecida pelo Sol – aquecida, não torrada. Sempre pensava se era isso que faltava aos europeus que vivem sem sol e são mais tristes, sendo até o número de suicídios maior em países em que não se vê muito a luz do sol. Sempre pensava coisas assim, que julgava bobo e não costumava comentar com ninguém. Com Danny, sempre comentava, porque sabia que ele não iria rir. Talvez, fosse gargalhar e rolar no chão, mas ela não se importava, porque provavelmente ele iria discutir por horas com ela, e mesmo que encontrassem idéias totalmente divergentes, iriam se entender. Sabia que aprenderia com ele, e talvez, ele com ela. Era por essas e outras que o amava também.
Caminhava ouvindo “Open Your Eyes” Do Snow Patrol. Estava quase chegando à faculdade, e embora fosse mesmo esse o destino final da caminhada, ficara triste; gostava de caminhar, principalmente ouvindo música, observando a vida a seu redor. Havia algumas músicas que eram ótimas pra caminhada, e essa era uma delas, mas claro, acabara de descobrir. Lembrava de que essa música significava dor. Fazia-a a lembrar do último relacionamento, e como queria que ‘abrissem os olhos’. Lembrava do video clip, que parecia um longo caminho por ruas tortuosas, mas que tinha um final feliz. E nunca teve o seu. Não nessa história. Mas agora a história era outra, e ficava feliz que podia ouvir a música sem se doer.
Chegou. Desligou o iPod, e entrou na faculdade, cumprimentando os vigias. Vestiu a máscara.