Aya e Marie conversaram por mais algum tempo. A conclusão que Marie tirou da situação é que Yoshiki deveria seguir em frente, sem ela. Pelo menos por aquele momento. Em sua cabeça, pesava a idéia de Alice com Yoshiki, que poderiam voltar, e preferia nem estar viva a saber disso. Parecia exagero, mas não era. Seria doloroso demais. Isso também mostrou a ela o quanto ainda amava Yoshiki e não queria perdê-lo, mas não sabia como tê-lo de volta. Achava que era preciso mais do que simplesmente voltar. Precisava se reconstruir. Tinha esperança de que o tempo fosse generoso com ela, com seu coração. Com o coração de Yoshiki.
Aya não saiu com a sensação de missão cumprida como gostaria, mas fez o que podia. Entendeu a delicada situação, ou tentava entender, e não sabia o que poderia fazer para ajudar o primo. Também estava preocupada, apesar de tudo que Yoshiki dissera, de que tivesse uma recaída por Alice. Mas acreditava que seu coração batia por Marie agora. Mas por quanto tempo?
Aya estava na estação do metrô, aguardando-o. Era um pouco antes do horário de pico, a estação já estava um pouco cheia, principalmente porque o trem estava demorando a vir. Reparou que havia uma exposição de fotos na plataforma, e já que o trem demorava, decidiu ver. Gostava de artes, em todas as suas formas. Não perdeu tempo e foi ver.
Eram fotos em preto-e-branco, retratando cenários, pessoas, fatos comuns, rotineiros. E mesmo coisas tão casuais pareciam bonitas através da lente de quem as sabia captar. Conforme ia vendo as fotos, lembrou de alguém que provavelmente iria gostar daquelas fotos. Gostava de compartilhar coisas bonitas quando encontrava, e sentiu um certo pesar porque dessa vez, não poderia compartilhar com a pessoa que veio à sua mente.
Teve então, uma surpresa, e um susto. A última foto. Aquela sombra, aquele jardim… Não lhe era nada estranho. Engoliu em seco, sentiu uma lágrima se formando, e lutando para manter-se ali em seu olho, até que secasse. Não era possível. Algo lhe corrompia dentro de si, enquanto não conseguia pensar em nada, e não conseguia tirar os olhos daquela foto em preto-e-branco. Não teve coragem de olhar para o nome do expositor, tentando encontrar alguma saída para aquele tormento. Até que ouviu uma conhecida voz.
- Gostou das fotos?
Aya relutou em virar-se. Mas precisava reagir. A lágrima secara, pois havia prometido a si mesma que nunca mais derramaria lágrimas por causa desse sentimento que a matava por dentro.
- Sabia que tinha algo seu nisso.
- Bem, todas são. Lembra dessa foto? – apontando para a foto que a fez estremecer.
- Claro… Não poderia esquecer.
Aya bem que gostaria de ter mentido, mas a verdade é que esta foto era mesmo inesquecível. Mostrava um pequeno jardim, florido, e a sombra de alguém de cabelos compridos, buscando flores. Aquela sombra era de Aya, e embora não aparecesse seu rosto, nem nada, era a foto mais bonita que haviam tirado dela. Como bem dizia a legenda foto: “Essência”.
A vida pregava uma nova peça. Aya não sabia porque andava pensando muito em coisas passadas, que a faziam sofrer, trazendo tudo à tona, até que deparou-se com o passado. Era Phill que estava ali, promovendo sua pequena exposição.
Phill ocupava um lugar no passado de Aya, o lado mais sombrio, mais escondido, o mais doloroso.
- Gostou da exposição?
- Sim… Muito bonita. Parabéns.
- Espero que não se importe de eu ter usado a foto.
- Esta? Ah, claro que não. Nem há como saber que sou eu nesta foto…
- Claro que é possível. Esta sombra não me engana… E rodeada de flores. Só poderia ser você.
Aya odiava ficar sem resposta. Odiava ter que responder com os olhos, então simplesmente não olhou nos olhos de Phill. Tinha um problema com isso. Com Phill, sempre houve uma ligação inexplicável, uma comunicação com os olhos, como não costumava acontecer com outras pessoas. Odiaria sentir essa conexão novamente, ao mesmo tempo que pensava em virar-se, e perceber que talvez não existisse mais conexão. Era sempre uma reviravolta dentro de si, uma confusão de paradoxos lutando entre si. Decidiu então procurar pelo trem, que havia chegado. Na verdade, desde que viu sua foto, haviam passados dois trens e nem se dera conta.
- Já vai?
- Sim, estava só de passagem.
- Meio irônico dizer isso numa estação de metrô.
- Pois é. Deveria escolher um lugar melhor para expor suas fotos. Todos passam muito depressa por elas.
- Talvez seja essa a inteção. Assim como todos passam depressa pela vida.
“Só se for pela sua”, pensou Aya. Conflitava agora um sentimento de pena e raiva. Pena, porque Phill sempre parece sozinho. Raiva, porque ele sempre quis ser exatamente assim.
NP: Twisted Mind – Avantasia
The One – Elton John
Beautiful Lie – 30 Seconds To Mars