The Luckiest

Just another WordPress.com weblog

O Verão é mesmo o Inferno Junho 26, 2008

Arquivado em: Verão — Eve @ 7:09 pm
Tags: , ,

Aya também ficara atônita ao saber de Marie. Aquela não poderia ser a doce e gentil Marie, que havia conhecido. Yoshiki e Marie viveram juntos por quatro anos, quatro intensos anos. Aya também achava que seria pra sempre. Nunca se intrometeu nas escolhas do primo, da forma como ele se intrometia nas suas, guardava sua opinião pra si.

Yoshiki namorou uma vez uma garota, quando era mais novo, chamada Alice. Era a primeira vez que Yoshiki se apaixonara. Aya ainda não entendia muito bem, tinha apenas 13 anos, sempre diz que amadureceu tarde para esse lado da vida.

Yoshiki namorou Alice, no total, por um ano. No total porque era idas e vindas que parecia não ter fim. Foi uma época sofrida, em que Yoshiki mergulhava de cabeça em suas paixões. Digamos que ainda mergulha, mas primeiro vê onde vai cair. Quando se é passional é difícil mudar, não importa quantas quedas.

Yoshiki era extremamente infeliz, mas amava Alice. Ela não sabia muito bem o que queria da vida, e enquanto isso, ficava com Yoshiki. Gostava dele também, sejamos justos. Mas sua vida era complicada demais para ser partilhada com alguém. E Yoshiki sofria. Para Aya era tudo muito simples: era só colocar um fim naquilo tudo, naquele sofrimento.

- Por que não termina com ela?

- Eu não posso terminar com ela. Aya, eu preciso dela, apesar de tudo. Sei que ela me faz sofrer, sei que me dou demais, mas eu a amo, não posso deixá-la assim.

- Mas não faz sentido… Acho que ela não te merece. Veja, ela não te liga, não corre atrás. E você não pára de pensar nela por um minuto.

- Ela não corre atrás porque… Bem, ela tem seus motivos. Ela é frágil, entende?

- Ela não corre atrás porque não precisa, você tá sempre atrás dela mesmo!

- Não é bem assim. Ela tem problemas… Mas ela não consegue me dizer muito bem o que é.

- Yoshiki, acho que é furada.

E foi a única vez em que Aya interferiu na vida de Yoshiki. Ainda não compreendia muito bem o jogo do amor, e fez o que achava melhor para o primo. Quando acontecia de Alice ligar, Aya desligava, entre outras ‘travessuras’. Achava que assim colocava o primo numa redoma, protegido da má Alice. Detestava-a.  Quem a ajudava era Sarah. A amiga ajudava a interceptar os telefones, até mesmo cartas, e-mails. Fazia as coisas darem errado, até Aya perceber que era errado intrometer-se assim. Mas Aya nunca se perguntou porque a amiga ajudava, além do fato de que amigos sempre se ajudam.

Sarah estava apaixonada por Yoshiki. Pensava nele dia e noite. Mas não contou a Aya, não por achar que não entenderia, mas para Sarah, a paixão platônica bastava. Yoshiki não precisava saber, ou sentir. Bastava estar perto de vez em quando, conversar, receber um sorriso. Sim, almejava mais às vezes. Mas percebia que Yoshiki era cegamente apaixonado por Alice.

- Parece doença. – disse Sarah.

- O Yoshiki está fazendo papel de bobo. Não vou mais me meter… Ele que se resolva.

- Coitado… A Alice vai fazer ele de gato e sapato.

- Por falta de aviso que não foi. Homem parece que gosta de sofrer. Não tem aquele ditado? “Pisa que eles correm atrás”? Acho que é verdade…

- Mas o Yoshiki deve saber o que faz. Por que se intromete tanto assim? Às vezes, acho que você o considera mais do que um primo…

- Como assim?

- Parece ciúmes…

- Não é isso. Só me importo o suficiente pra não quer vê-lo mal.

- Tem certeza que não é ciúmes? – provocava Sarah.

- Claro que não, de onde tirou isso?

- Ah, depois que ele conheceu Alice, vocês passaram a sair menos, se falam menos…

- Saímos bem menos mesmo. Mas continuamos nos falando.

- Então está bem…

Aya lembrava-se que o auge da “moléstia” de Yoshiki também fora no Verão. Lembra porque era férias, por isso tinha tempo de interceptar Alice, com ajuda de Sarah. Era até divertido, pensou. Mas Yoshiki não sabia até hoje. Será que ele ficaria bravo, depois de tanto tempo? Pensou em contar, mas não queria falar em coisas passadas, principalmente se tratando de Alice. Não era tabu, mas Aya evitava. Yoshiki não podia evitar um ar de tristeza ao falar dela. Um amor grande só se supera com um outro maior, é o que dizem. Uma grande tristeza só se supera com uma tristeza… maior ainda? Aya não queria mesurar nada. Só queria ver o primo bem. Mas, apesar de já ter enfrentado muitos momentos assim, ainda não sabia uma forma de confortar o primo.

Yoshiki e Aya tinham em comum a fragilidade. Aya sempre dizia que Yoshiki era frágil como um cristal, Yoshiki sempre achava Aya delicada como uma boneca de porcelana, mas ambos se julgavam fortes. Sabiam que não eram. Compartilhavam do mesmo mal: a de serem extremamente românticos.

- Não gostaria de ser tão passional às vezes. Parece bom em alguns momentos, mas em outros, penso se vale a pena.

- E isso é questão de escolha, Yoshiki? Não somos assim porque queremos. Somos assim porque… somos. Há coisas que não se mudam. Eu já tentei, e na verdade, eu consegui, mas não gosto. Finjo ser outra pessoa.

- Conseguiu? Quando?

- Ah, bem…

- Já sei. Com Phillip?

- Por aí. E pior que era Verão também…

- O quê?

- Nada, não.

 

NP: Talking To A Brick Wall – The Cooper Temple Clause

The Blower’s Daughter – Damien Rice

Zodiac Virtues – Diablo Swing Orchestra

Sand & Mercury – The Gathering

 

Primavera Junho 20, 2008

Arquivado em: Primavera — Eve @ 1:14 am
Tags: ,

Uma de suas músicas favoritas era ‘The Rain Song’, do Led Zeppelin. Aya gostava, porque falava das estações, de como mudavam as coisas, a vida. Sentia que era assim consigo mesma. Mas a estação que mais gostava era a Primavera. “This is spring time of my loving…” era a frase que “estampava” seu fichário da faculdade. Como se a Primavera fosse suficiente.

Gostava das flores, e claro, principalmente nesta época. Gostava de andar pela universidade onde estudava e ver a grama bem aparada, pois podia enxergar as flores. Tinha uma vontade imensa de pegá-las, colher algumas e levar consigo, ou mesmo se ornamentar com alguma pequena flor. Mas sabia que as flores pertecem à natureza, e que estavam ali, cumprindo seu papel.

Imaginava como seria seu quintal quando tivesse seu próprio canto. Não sabia se teria um quintal, caso morasse num apartamento. Mas com certeza haveria vasos de flores espalhados em alguma varanda. Flores dentro de casa, sempre. Questionava-se como a mãe tinha disposição de ir comprar coisas de culinária diariamente no mercado, quando precisava cozinhar e queria algo diferente. “Cozinhe com o que tem”, pensava. Mas a mãe adorava cozinhar, e não hesitava em ir buscar champignons se fosse fazer um strogonoff. Pensava que seria assim com as flores.

Na casa em que mora com os pais, não havia muitas flores ou mesmo plantas. O pai era alérgico ao pólen, e a mãe nunca gostou de “mato”. Achava a casa cinzenta pela ausência de uma orquídea, de uma tulipa, de gérberas, de violetas, de dálias, de margaridas, de lírios e ah, as rosas, suas preferidas. Gostava da pomposa rosa colombiana, mas a rosa simples ainda era sua predileta. Sempre foi.  Havia sonhado aquele dia que ganhara rosas amarelas, fechadas. Gostava de sentir a maciez das pétalas, como se fosse veludo. Lembrara do sonho ao caminhar na universidade.

Gostava do pôr do sol. Bem, quem não gosta? Mas gostava de reparar. E achava o pôr do sol mais bonito também na Primavera. Sempre chegava à faculdade neste horário, então sempre teve o privilégio de caminhar observando o horizonte. Sentia-se bem assim. Como se não precisasse de mais nada.

Aya normalmente se sentia feliz com coisas assim, “pequenas”, apesar de sempre ter sonhado grande. Sempre foi uma daydreamer incorrigível. Impressionava-se como poderia encontrar paz em coisas tão simples. Por isso sempre gostou muito de flores, do pôr do sol, da Lua, das estrelas, da noite, de um céu límpido ou cheio de flocos de nuvens branquinhas, do silêncio da madrugada, de animais, da natureza. Muitos dos que a conheciam, provavelmente não esperava que fosse assim. Nunca quis se mostrar muito ao mundo; usava sua máscara todos os dias, mas não achava que isso fosse ruim. Bem, talvez tivesse mais amigos se mostrasse a verdadeira Aya. Ou menos. Mas não importava, pois gostava dos seus. Mas claro, sabia que a máscara era também muito friável e efêmera. Ninguém conseguia se esconder por completo, ou por muito tempo. Assim esperava.

Só havia algumas pessoas com quem conseguia ser ela mesma, sem ter que esconder, sem ter vergonha de falar de seus gostos, de suas vontades, de seus medos. Sua amiga Sarah, que conhecia há 17 anos. Estavam com 24 anos de idade agora. Conheceram-se no pré-escolar. Odiavam-se. Odiaram-se até a segunda série. Passaram a ser as melhores amigas. Odiaram-se novamente na sétima série. Voltaram a ser as melhores amigas. E desde então, tem sido assim. Voltaremos a falar de Sarah mais adiante. Digamos que ela merece um capítulo à parte.

Aya estava apaixonada. Muito. Amava demais seu namorado, Danny. Era outra pessoa que confiava completamente, sem pestanejar. Namoravam há um ano, pouco tempo para alguns, tempo suficiente para outros. Ambos se conheciam bem. Sabiam da vida um do outro, de alegrias, de descontentamentos, de gostos, de medos, de sonhos, e partilhavam muitos deles. Era por isso que haviam de se encontrar: eram parecidos. Além disso, combinavam, o que são duas coisas diferentes. O que era essencial para que dessem certo, e sabiam disso.

Danny também cursava a mesma universidade, porém faziam cursos bem distintos: Aya optou por Engenharia, embora gostasse tanto da natureza, nunca se achou capaz de lidar com pessoas ou animais. E outra, gostava muito de Exatas, e se dava muito bem com número e coisas muito mais complexas. Danny cursava Medicina, e se dedicava quase que integralmente ao curso.

Era Primavera agora. Mas em São Paulo, tem-se a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno num único dia. Apesar de ser Primavera, os dias estavam frios. Aya até prefere o frio do que o calor. Bem, já houve a época do Outono ser o eleito, assim como o Inverno. Mas nunca o Verão. Embora às vezes ficasse feliz quando se sentia aquecida pelo Sol – aquecida, não torrada. Sempre pensava se era isso que faltava aos europeus que vivem sem sol e são mais tristes, sendo até o número de suicídios maior em países em que não se vê muito a luz do sol. Sempre pensava coisas assim, que julgava bobo e não costumava comentar com ninguém. Com Danny, sempre comentava, porque sabia que ele não iria rir. Talvez, fosse gargalhar e rolar no chão, mas ela não se importava, porque provavelmente ele iria discutir por horas com ela, e mesmo que encontrassem idéias totalmente divergentes, iriam se entender. Sabia que aprenderia com ele, e talvez, ele com ela. Era por essas e outras que o amava também.

Caminhava ouvindo “Open Your Eyes” Do Snow Patrol. Estava quase chegando à faculdade, e embora fosse mesmo esse o destino final da caminhada, ficara triste; gostava de caminhar, principalmente ouvindo música, observando a vida a seu redor. Havia algumas músicas que eram ótimas pra caminhada, e essa era uma delas, mas claro, acabara de descobrir. Lembrava de que essa música significava dor. Fazia-a a lembrar do último relacionamento, e como queria que ‘abrissem os olhos’. Lembrava do video clip, que parecia um longo caminho por ruas tortuosas, mas que tinha um final feliz. E nunca teve o seu. Não nessa história. Mas agora a história era outra, e ficava feliz que podia ouvir a música sem se doer.

Chegou. Desligou o iPod, e entrou na faculdade, cumprimentando os vigias. Vestiu a máscara.