Aya também ficara atônita ao saber de Marie. Aquela não poderia ser a doce e gentil Marie, que havia conhecido. Yoshiki e Marie viveram juntos por quatro anos, quatro intensos anos. Aya também achava que seria pra sempre. Nunca se intrometeu nas escolhas do primo, da forma como ele se intrometia nas suas, guardava sua opinião pra si.
Yoshiki namorou uma vez uma garota, quando era mais novo, chamada Alice. Era a primeira vez que Yoshiki se apaixonara. Aya ainda não entendia muito bem, tinha apenas 13 anos, sempre diz que amadureceu tarde para esse lado da vida.
Yoshiki namorou Alice, no total, por um ano. No total porque era idas e vindas que parecia não ter fim. Foi uma época sofrida, em que Yoshiki mergulhava de cabeça em suas paixões. Digamos que ainda mergulha, mas primeiro vê onde vai cair. Quando se é passional é difícil mudar, não importa quantas quedas.
Yoshiki era extremamente infeliz, mas amava Alice. Ela não sabia muito bem o que queria da vida, e enquanto isso, ficava com Yoshiki. Gostava dele também, sejamos justos. Mas sua vida era complicada demais para ser partilhada com alguém. E Yoshiki sofria. Para Aya era tudo muito simples: era só colocar um fim naquilo tudo, naquele sofrimento.
- Por que não termina com ela?
- Eu não posso terminar com ela. Aya, eu preciso dela, apesar de tudo. Sei que ela me faz sofrer, sei que me dou demais, mas eu a amo, não posso deixá-la assim.
- Mas não faz sentido… Acho que ela não te merece. Veja, ela não te liga, não corre atrás. E você não pára de pensar nela por um minuto.
- Ela não corre atrás porque… Bem, ela tem seus motivos. Ela é frágil, entende?
- Ela não corre atrás porque não precisa, você tá sempre atrás dela mesmo!
- Não é bem assim. Ela tem problemas… Mas ela não consegue me dizer muito bem o que é.
- Yoshiki, acho que é furada.
E foi a única vez em que Aya interferiu na vida de Yoshiki. Ainda não compreendia muito bem o jogo do amor, e fez o que achava melhor para o primo. Quando acontecia de Alice ligar, Aya desligava, entre outras ‘travessuras’. Achava que assim colocava o primo numa redoma, protegido da má Alice. Detestava-a. Quem a ajudava era Sarah. A amiga ajudava a interceptar os telefones, até mesmo cartas, e-mails. Fazia as coisas darem errado, até Aya perceber que era errado intrometer-se assim. Mas Aya nunca se perguntou porque a amiga ajudava, além do fato de que amigos sempre se ajudam.
Sarah estava apaixonada por Yoshiki. Pensava nele dia e noite. Mas não contou a Aya, não por achar que não entenderia, mas para Sarah, a paixão platônica bastava. Yoshiki não precisava saber, ou sentir. Bastava estar perto de vez em quando, conversar, receber um sorriso. Sim, almejava mais às vezes. Mas percebia que Yoshiki era cegamente apaixonado por Alice.
- Parece doença. – disse Sarah.
- O Yoshiki está fazendo papel de bobo. Não vou mais me meter… Ele que se resolva.
- Coitado… A Alice vai fazer ele de gato e sapato.
- Por falta de aviso que não foi. Homem parece que gosta de sofrer. Não tem aquele ditado? “Pisa que eles correm atrás”? Acho que é verdade…
- Mas o Yoshiki deve saber o que faz. Por que se intromete tanto assim? Às vezes, acho que você o considera mais do que um primo…
- Como assim?
- Parece ciúmes…
- Não é isso. Só me importo o suficiente pra não quer vê-lo mal.
- Tem certeza que não é ciúmes? – provocava Sarah.
- Claro que não, de onde tirou isso?
- Ah, depois que ele conheceu Alice, vocês passaram a sair menos, se falam menos…
- Saímos bem menos mesmo. Mas continuamos nos falando.
- Então está bem…
Aya lembrava-se que o auge da “moléstia” de Yoshiki também fora no Verão. Lembra porque era férias, por isso tinha tempo de interceptar Alice, com ajuda de Sarah. Era até divertido, pensou. Mas Yoshiki não sabia até hoje. Será que ele ficaria bravo, depois de tanto tempo? Pensou em contar, mas não queria falar em coisas passadas, principalmente se tratando de Alice. Não era tabu, mas Aya evitava. Yoshiki não podia evitar um ar de tristeza ao falar dela. Um amor grande só se supera com um outro maior, é o que dizem. Uma grande tristeza só se supera com uma tristeza… maior ainda? Aya não queria mesurar nada. Só queria ver o primo bem. Mas, apesar de já ter enfrentado muitos momentos assim, ainda não sabia uma forma de confortar o primo.
Yoshiki e Aya tinham em comum a fragilidade. Aya sempre dizia que Yoshiki era frágil como um cristal, Yoshiki sempre achava Aya delicada como uma boneca de porcelana, mas ambos se julgavam fortes. Sabiam que não eram. Compartilhavam do mesmo mal: a de serem extremamente românticos.
- Não gostaria de ser tão passional às vezes. Parece bom em alguns momentos, mas em outros, penso se vale a pena.
- E isso é questão de escolha, Yoshiki? Não somos assim porque queremos. Somos assim porque… somos. Há coisas que não se mudam. Eu já tentei, e na verdade, eu consegui, mas não gosto. Finjo ser outra pessoa.
- Conseguiu? Quando?
- Ah, bem…
- Já sei. Com Phillip?
- Por aí. E pior que era Verão também…
- O quê?
- Nada, não.
NP: Talking To A Brick Wall – The Cooper Temple Clause
The Blower’s Daughter – Damien Rice
Zodiac Virtues – Diablo Swing Orchestra
Sand & Mercury – The Gathering