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O passado condena Junho 24, 2008

Arquivado em: Uncategorized — Eve @ 5:13 am
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Andava pensando muito em coisas passadas. Mas de uma forma saudável, não doentia, olhando pra trás, se arrependendo. Isso era algo que raramente acontecia à Aya. Costumava se arrepender muito quando era adolescente, por tantas chances desperdiçadas, tantas histórias não vividas, imaginadas só na cabeça. Mas se parava pra pensar em velhos arrependimentos, ficava feliz por não ter feito. Como toda adolescente, sentia-se deslocada, mas Aya realmente era o peixe fora d’água, a julgar pelos amigos. Alguns já fumavam e bebiam. Aya odiava. Quer dizer, contaremos aqui uma fase ‘negra’ de sua vida, que preferia esconder.

Não podia julgar os amigos que fumava – aliás, poderia julgar alguém-, pois havia fumado por quase seis meses sem ninguém saber, apenas os amigos mais próximos daquela época. Sim, daquela época, porque não falava com mais ninguém. A última vez que tinha colocado um cigarro na boca, fez as contas, foi há 9 anos. 9 anos. Era só uma criança, praticamente. Como é que pode? Revoltou-se consigo mesma.

 

Lembra-se que tinha vontade constante de experimentar um cigarro. Não se sabia ao certo de onde vinha essa vontade, já que ninguém em casa fumava. Os pais eram super naturebas, nem consumiam álcool, só em ocasiões especiais, como Natal ou Ano Novo, em que forçam todos a fazer um brinde com a melhor champagne. Lembra dessa vontade doentia de saber como era, e como tomou a decisão. Decidiu também que faria isso sozinha, pois sabia bem que as amigas eram um tanto influenciáveis. Mas a melhor amiga da época em questão, Gabrielle, parecia ter adivinhado seus pensamentos, e comprou um maço na frente de Aya. E como Gabrielle não era o melhor exemplo de menina, convocou os amigos. E Aya compartilhou, já que essa era mesmo sua vontade. Mas deixou bem claro que não era sugestionável. E claro que ninguém acreditou. Todo mundo adora apontar o dedo.

 

E foi assim por seis meses, fumando escondida com os amigos. Para os pais não desconfiar, costumava passar em lojas de perfume com as amigas, e experimentar tudo quanto era fragrância no próprio corpo. Quando alguma vendedora preferia borrifar o perfume num papel, esfregavam o papel no pescoço. Mas tinha um problema maior: o cabelo. Esse impregna, e é fatal. A mãe de Aya bem que achou estranho sentir o aroma da fumaça na filha, já que elas apenas passeavam pelo shopping com as amigas. Mas Aya sempre tinha histórias mirabolantes na manga: uma vez inventou que um grupinho de meninas invejosas e idiotas que fumavam – claro, só idiotas fumam, reforçava -, as provocaram, jogando a fumaça do trago em cima delas. Como existe uma boa parcela de adolescentes cabeça-oca, a mãe acreditou. E Aya tratou de ser mais cuidadosa.

 

Mas passaram os seis meses e Aya percebeu que não tinha sentido fumar. Experimentou, como queria. Não gostou, mas havia algo de atraente naquilo, reconhecia. Em filmes, sempre havia alguma mulher poderosa que segurava o cigarro entre os dedos e parecia tão superior… Como também havia aquela decadente que fumava feito condenada, que geralmente também segurava (ou tentava) um copo de whisky. Aya não queria ser nem uma, nem outra. Queria ser ela mesma. E parou. Gabrielle fuma até hoje. Pelo menos é o que pensa Aya, já que as duas não se falam mais. Não têm contato. Na Primavera seguinte, pararam de se falar, mas explicaremos mais adiante. A última vez que a tinha visto, a viu de relance na prova do vestibular, isso há 5 anos. Fumava.

Nesse dia se deu conta onde poderia ter caído. Na verdade, já havia se dado conta quando tinha tomado aquela estúpida decisão. Mas sentiu um certo alívio de ter consciência. Aquela mesma consciência que a sempre fez pensar demais e perder oportunidades. Mas aparentemente, servia pra alguma coisa. Claro, às vezes lhe faltava também, como em qualquer ser humano que possui fraquezas. Porque há aqueles que não possuem, como bem diz Álvaro de Campos, quando diz que está farto de semi-deuses, e como canta Ben Folds em “Bastard”.

 Lembrou-se de uma certa festa, não lembra quando foi. Estava com seu primeiro namorado, Thomas. Lembra de uma tragada que deu em seu cigarro, apesar de ambos não fumarem. Mas Thomas era do tipo que se influenciava ou se impressionava quando os amigos se embebedavam ou fumavam como se fosse a última coisa do mundo. Talvez para se sentirem alguma coisa. Aya não gostava desse show, mas não sabia como funcionava esse mecanismo na época. Acabou dando uma tragada, e lembrou porque havia parado. Então, na verdade, fazia 6 anos.

 

Mais uma vez pensou, se tivesse conhecido Danny antes, talvez nunca tivesse colocado um cigarro na boca.

NP: Blinded – Beseech

Waltz – Craig Armstrong

My Sacrifice – Creed [life's irony].

The Answer Lies Within – Dream Theater